Carne de segunda

Imagem

Quem disse que beleza é fundamental não sabe nada das coisas do amor e do sexo. Pode até se julgar esteta, mas, para mim, é apenas limitado. Beleza nunca foi sinônimo de perfeição. O belo não é conceito intocável, visto que muda com o tempo, e o que é perfeito não pode mudar. Perfeição é mais que um fim, é “o” fim. A beleza não cessa mesmo com a unanimidade do gosto que a torna convenção ― primeiro passo rumo à vulgaridade, a que muitos atribuem seu estiolamento ―, ela apenas muda. Vai, volta, entra e sai. Beleza é movimento. É tudo que nos dá prazer.

A ideia de perfeição atrelada ao conceito de belo é um belo equívoco, assim como a de raridade. A própria arte pode prescindir de beleza formal; a melhor poesia, às vezes, não tem uma única rima; o que agrada aos olhos, pode não agradar ao tato e menos ainda ao espírito. Posso citar aqui milhões de outros argumentos, mas estes bastam e, depois, a história que vou contar, a minha história, é o melhor deles.

Desde muito novo aprecio as mulheres feias, mal feitas de corpo, simples e sem modos, com um palavrão na boca e um pedaço da alça do sutiã escapando pela blusa. Aos 63 anos, com muito dinheiro e uma educação que, desde a mais tenra infância, sempre primou pelo refinamento e pelos valores tradicionais, só me realizo plenamente com as chamadas vagabundas. Talvez o contraste entre meu mundo e o delas esteja na raiz da questão. Senão, como explicar minha queda por garotas de escritório e empregadinhas domésticas, duas de minhas categorias prediletas?

Como proprietário de um dos restaurantes mais chics do circuito gastronômico paulistano, preservo minha imagem com um casamento de fachada que já dura mais de um quarto de século, mas é só a oportunidade aparecer, a qualquer hora do dia, e lá estou eu, beliscando um traseiro cheio de celulite num quarto qualquer de motel, de preferência o mais fuleiro das redondezas.

Foi numa dessas escapadas que conheci mais intimamente Renilda, uma das empregadas de minha residência. De tez morena, mignon, e com alguns dentes a menos (usa uma ponte móvel na arcada superior), é dona do par de tetas mais avantajado que já conheci. Dois bicos gordos e castanhos que lembram um bico de mamadeira são a parte mais sensível de seu corpo. Basta tocá-los, mesmo que de leve, e ela se abre toda; se tratados com maior violência, chupados, mordidos, enlouquece. Entra num transe erótico de causar inveja a muita socialite frígida que vive à base de antidepressivos e caras sessões de psicoterapia, como minha mulher.

Mas deixemos a esposa de lado e voltemos a Renilda. Pois esta divindade pagã do nordeste meridional tinha ido bater à porta da minha biblioteca — onde eu pesquisava uma receita tradicional do norte da Itália, à base de trufas, para o festival gastronômico que promovo anualmente no restaurante — pedindo licença para uma conversa rápida. Permiti que entrasse, contanto que fosse rápida.

— Doutor Rodolfo, o senhor me desculpa atrapalhar, é que eu tenho uma sobrinha que chegou de Ilhéus esses dias e tá procurando emprego. Ela é cozinheira de mão cheia, já trabalhou em restaurante bom. Foi até ajudante de cozinha daquele restaurante mediterranê, sabe?! Daí que eu pensei em pedir uma ajuda pro senhor… quem sabe não tá precisando… ou o senhor, que conhece tanta gente, não sabe…

― Quantos anos ela tem?

― Dezenove. O nome dela é Marilene. É honesta, de confiança. Muito trabalhadeira.

― Diga a ela para ir ao restaurante amanhã, pela manhã, e procurar pelo Oswaldo, do departamento pessoal, é ele quem lida com essas coisas. Diga que fui eu que mandei.

Enquanto ela falava, de olho naqueles peitos e protegido pela enorme escrivaninha de mogno acariciei o pinto que já se animava dentro da calça. Não prestava muita atenção às palavras, estava magnetizado pelos movimentos que aqueles enormes melões d’água faziam acompanhando sua respiração e a fala, algo contida. Minha imaginação guiava-me o espírito para dentro do uniforme azul-marinho, através das mínimas aberturas.

― Minha mulher já voltou?

― Dona Gilda chegou e saiu. Mandou avisar ao senhor que estava descendo pro Guarujá.

― Mas eu pedi a ela que antes… ah, bom, tudo bem. Renilda, por favor, daqui a pouco vou subir e tomar um banho. Gostaria que você levasse até o quarto um copo de leite morno, algumas torradas com ricota e geleia de damasco.

― Sim, senhor.

― Dentro de mais ou menos… hummm… vinte minutos.

― Sim, senhor. Dá licença, muito obrigada pela atenção, doutor.

Momentos depois, eu estava no quarto, só de toalha, quando ela bateu na porta.

― Entre.

Ao entrar e me encontrar de toalha, ficou sem graça.

― Que foi? Nunca viu um homem de toalha?

― Não senhor, respondeu desviando os olhos, é que… eu podia ter esperado…

― Te incomoda?

― Não, senhor, respondeu olhando para o chão.

― Renilda, encoste a porta… sente-se ali, naquela poltrona. Pode deixar a bandeja na mesinha, obrigado.

Enquanto ela obedecia, notei que estava um pouco nervosa e tremia levemente.

― Não precisa ficar com medo. Vou ser claro e direto com você. Desde que você veio trabalhar aqui, venho notando que, além de ótima profissional, você tem outros atributos que me agradam muito. Você pode conseguir muito mais com seu trabalho do que imagina.

― Mas eu tô muito satisfeita, nunca reclamei, interrompeu assustada.

― Qual sua idade mesmo?

― Trinta e oito.

― Pois bem, nessa idade já não é tão fácil arranjar um bom emprego por aí. Neste país, na situação em que está, você sabe. Teve muita sorte em vir trabalhar nesta casa, e espero que continue por aqui por muitos anos ainda. Bem, tenho uma proposta para te fazer, mas antes quero que você me prometa que esta conversa ficará só entre nós, que morrerá aqui!

― Sim, senhor, eu prometo.

― Você namora?

― Não senhor, respondeu crispando as mãos pousadas sobre a saia.

― Já teve homens na vida?

― …

― Calma, Renilda, sei que é falta de educação devassar a intimidade alheia, mas é que preciso saber. Você me faria um favor? Te dou o que você quiser.

― Depende, respondeu arregalando os olhos pequenos.

― Quero fazer amor com você.

Renilda emudeceu alguns instantes para responder ruborizada.

― Doutor Rodolfo, nunca fiz essas coisas na vida, não. Não sou quenga, não, viu? Sou mulher direita!

― Eu não disse isso. Eu sei que você é honesta e tudo mais, mas, veja bem, honestidade e tesão são coisas distintas, não tem nada a ver uma coisa com a outra. O que estou te propondo não é um programa. Quero saborear teu corpo. Em troca, te dou o que você quiser. A decisão é sua. Emprego tua sobrinha, te dou roupas, te abro uma poupança gorda… pensa bem. Vai. Pode voltar ao serviço, depois me dá a resposta. Mas que ninguém saiba dessa conversa. Nin-guém! Entendeu?!

― Sim, senhor, respondeu, saindo apressada.

Aquela conversa e sua lavanda barata que ainda pairava no ar me deixaram excitado. Não via a hora de foder aqueles peitos, agasalhar o membro em seu vão macio. Voltei ao chuveiro e me masturbei.

No dia seguinte, com tudo acertado, fomos a uma espelunca na avenida São João.

Tirei a roupa, pedindo que ela ficasse apenas de calcinha e sutiã, queria descascá-la aos poucos.

Obedeceu. Como uma fruta madura e perfumada, Renilda me oferecia seu corpo, estendida sobre a colcha de chenile laranja. Caí sobre ela lambendo-lhe as coxas grossas até alcançar a calcinha adornada por um lacinho vermelho de extremo mau gosto. Beijei o monte de Vênus sob o pano macio, subi mais um pouco até a barriga protuberante, enfiei a língua no umbigo e voltei à calcinha, abocanhando a frente da peça com dentes afiados. Puxei com violência, arriando-a até a altura dos seus joelhos.

Tentando libertar as pernas, ela se contorcia. Sem lhe dar trégua, meti a mão direita no meio delas, empalmando o sexo quente e melado que encheu o ar do quarto com seu cheiro forte.

― Ai, ai, ai, doutor Rodolfo, que gostoso, que gostoso…

Depois da estripulia, coloquei-a dentro de um táxi para que fosse para casa em segurança, pois era tarde da noite. Repetimos a dose mais vezes, até que me cansei e, algum tempo depois, é lógico, tive de demiti-la. Deixei-a em ótima situação financeira, arranjei emprego para a sobrinha e ainda a indiquei para um novo serviço, como camareira-chefe em um flat, onde passou a ganhar um pouco mais e a trabalhar muito menos.

Outra coisa que gosto é de correr algum perigo. Aventuras rápidas no carro, estacionado em um beco escuro; sexo ligeiro no elevador, ou em lugares inusitados como o depósito do meu restaurante, lugar que, aliás, foi palco de uma sessão relâmpago com uma de minhas funcionárias da cozinha chamada Sandra, uma mineira deliciosa.

Geniosa, arredia, de uma teimosia ímpar. Imagine que usava havaianas na cozinha, durante o expediente, coisa proibidíssima pela saúde pública. De uma falta de higiene…

A responsável pela cozinha vivia às turras com ela, chegou a ameaçá-la de demissão. Não adiantou, Sandra mantinha o mesmo hábito porco. Dizia que a cozinha era muito quente e os sapatos, desconfortáveis, não se adequavam ao formato de seus pés, enormes e esborrachados, “pés de índio” como definia. A situação tomou tais proporções que fui chamado a intervir pessoalmente.

Apesar disso, Sandra era a mais competente das empregadas que haviam passado pela cozinha. Organizada, rápida, pontual e excelente cozinheira, a única até então a quem havíamos confiado o segredo de um dos pratos especiais da casa, criados por minha avó. Sandra era tão boa nessa arte que também criara um prato próprio, de sabor inigualável, e incrementara intuitivamente os já existentes. Certos clientes, como o governador do Estado e um famoso ator de novelas, eram os maiores fãs desses pratos.

Ela caminhava a passos largos para a chefia da cozinha. Era ambiciosa, segura de seu valor, por isso desafiava as regras. Mas houve outro problema, muito maior, apaixonei-me perdidamente por aqueles pés toscos.

Tanto fiz que, com jeitinho e autoridade, consegui que calçasse os sapatos e me fizesse uma bela chupetinha no depósito.

Foi num começo de tarde, o movimento do almoço havia cessado e fui dar uma inspecionada na cozinha. A maioria dos funcionários saíra e só havia três paraíbas lavando pratos, enquanto ela cortava cebolas para as receitas do jantar.

― Sandra, preciso conferir o estoque, gostaria que você me acompanhasse.

Obedeceu, seguindo-me com alguma dificuldade pelas escadas rumo ao depósito. Aqueles sapatos a incomodavam visivelmente, percebi que não era um simples capricho.

No estoque, me dirigi ao fundo, parando em frente a uma pequena escada que dava acesso à parte superior da prateleira onde ficavam grandes latas de azeite português.

― Por favor, suba e pegue duas latas para mim. Quero conferir a validade.

― Vou tirar o sapato porque assim não dá pra subir. Tenho medo de cair, falou com ar desafiador.

― Pode tirar, respondi, não estamos na cozinha.

― Seu Rodolfo, porque essa implicância comigo, essa penitência? Não cozinho c’os pé?!

― Questão de higiene, Sandra. Você sabe, não vamos voltar a este assunto. Ele está encerrado, respondi enquanto ela, já livre dos sapatos, subia as escadas descalça.

― Cuidado! Segure-se, orientei paternal.

Enquanto ela resfolegava pegando as latas de óleo com muito pouca vontade, dei uma bela reparada em seu traseiro avantajado. Uma bunda enorme. Pornográfica. Era uma mulher muito gostosa, de ascendência indígena. Mas aquela bunda e a vasta cabeleira encaracolada que mantinha presa sob a redinha num coque higiênico evidenciavam sua porção de sangue negro. Era, portanto, cafuza. Uma mulher belíssima, tipicamente brasileira. Apesar de se dizer evangélica, corria à boca pequena que era fácil, de combustão espontânea. Eu estava disposto a tirar a prova.

A visão daqueles pés estava me tirando do sério. Tive uma ereção.

― Segura aqui, seu Rodolfo, pediu, passando-me uma das latas.

Quando voltou-se para a prateleira, esticando os braços para alcançar a segunda lata, segurei seus tornozelos e beijei o peito de um de seus pés com paixão.

― Qui que é isso, seu Rodolfo? Ficou doido? gritou, surpresa.

― Desce daí. Rápido. Vai! Aproveita que não tem ninguém, ordenei.

― O senhor tá passando bem? Ah, ah, ah.

No fundo, ela era uma criança, uma caipira inocente que se derretia à mínima demonstração de afeto.

― Desce, mulher, estou mandando. Você não vai se arrepender, disse isso e voltei a beijar-lhe os pés dos quais exalava um odor característico leve, misturado ao do sapato.

Esperta, pediu:

― Só se o senhor prometer que não vai mais me forçar a usar esse sapato enjoado.

― Prometo. Se você me obedecer e fizer o que eu mandar. Vamos, anda, desce!

Ela desceu, eu abri a braguilha da calça, pus o robalo para fora e ordenei.

― Vem, abaixa. Põe a boca aqui.

Não precisei pedir outra vez. Sandra ajoelhou-se prontamente e o engoliu com vontade, passando a manejar o saco com perícia profissional. Masturbava-me ao mesmo tempo, pressionando o membro com tal força que parecia querer massacrá-lo. Eu estava nas nuvens. Esqueci de tudo. Apoiei meu corpo na prateleira e me abandonei àquela boca sedenta. Fodia seu rosto com estocadas crescentes até quase sufocá-la. Meus pelos escondiam seu nariz. Sentia a pulsação de sua garganta.

Quando ela percebeu que a ejaculação se aproximava, tentou se libertar, mas eu prendi sua cabeça com as mãos. Quando a soltei, desatou num palavrório de baixíssimo nível.

― Filho da puta, quase me afoga com essa pica! Me machucou.

― Xii, psiu. Quieta, alguém pode ouvir.

― E eu com isso? Me machucou a…

― Calada, interrompi. Se machucou te levo num médico já.

― Tá louco? Tenho medo de hospital. Daqui a pouco passa.

― Desculpe se fui um pouco grosso. É que você tira qualquer cidadão da linha.

― O senhor é muito safado, né? Já tinha ouvido umas história, mez. Pensei que fosse mentira. Qué sabê? Quero dá de verdade pro senhor. E num motel desses bem chique. Me leva?!

― Psssiu, menina assanhada! Depois a gente conversa. Vamos descer. Seja discreta. E, olha, se contar pra alguém o que aconteceu, é rua, hein? Ru-a!

― Pode ficar tranquilo, seu Rodolfo. Mas eu quero um agrado.

― Você terá. Se fizer o que eu pedir, entendeu?

Nos encontramos inúmeras vezes. Levei a moça ao motel de primeira para satisfazer-lhe a curiosidade. Trepamos no carro. Em meu escritório. Em vários lugares. Sandra trabalha até hoje no restaurante. Agora, é chefe de cozinha, mas não temos mais nada. Tudo que é muito bom também enjoa. Além do mais, está apaixonada por um dos rapazes que faz a segurança do restaurante. Estão tendo um caso.

Também estou de caso novo. Minha secretária Adriana, uma suburbana de cabelos descoloridos e sorriso amarelado pela nicotina.Vive com a família no Belenzinho e, quando irritada, a cada cinco palavras, solta um “puta que o pariu”. Finíssima! Do jeito que eu gosto.

Na primeira noite em que saímos juntos a levei a um drive-in, na avenida Santo Amaro, um lugar decadente onde pudemos ficar à vontade. Ela se revelou, para minha surpresa, uma amante e tanto.

Estávamos nos bolinando, quando tirou a blusa e me ofereceu os seios miúdos para chupar. Comecei lambendo a teta esquerda, ligeiramente maior que a direita, detalhe que, ao invés de causar-me qualquer tipo de reação negativa, me deu ainda mais tesão. Adriana abriu minha camisa, acariciou meu peito cabeludo ao mesmo tempo em que eu a chupava. Foi descendo as mãos até a calça, na qual entrou sem cerimônia, baixando o zíper enlouquecida à procura vocês sabem do quê. Quando encontrou o que buscava, trouxe para fora e principiou uma boquette de tirar o chapéu.

No auge da excitação, livre da minissaia, pediu:

― Come meu cu?!

Surpreso, ma non troppo, fiz sua vontade. Ao penetrá-la, Adriana deu um berro, misto de prazer e dor, que me aterrorizou, excitando-me ainda mais. O vaivém compassado foi aos poucos se tornando animalesco à medida em que ela contraía o esfíncter e soltava impropérios cada vez maiores.

– Aaaaii, Rodolfo. Goza, cachorro! Soca, filho da puta. Vai, vai, vai…

Não pude mais me conter. Explodi num orgasmo tão intenso, amassando com tal força aquelas tetinhas, que devo ter-lhe marcado o corpo.

Mais tarde, a caminho da casa dos pais onde ia deixá-la, enquanto cruzávamos a radial leste a toda velocidade, quis pegar meu sexo outra vez.

― Estou cansado, Adriana. Amanhã tem mais.

― Deixa vai, pituxooo?! pediu, manhosa.

Capitulei. Ela me masturbou, enquanto eu alternava a mão direita entre câmbio e boceta.  Pela primeira vez tive um orgasmo em trânsito.Uma loucura! Na velocidade em que eu estava, se perdesse a direção, não estaria aqui para contar essa história.

Já fiz loucuras maiores, como contei no início da narração, mas sou homem requintado.  Prezo a educação, a diplomacia e, como bom restaurateur, os bons modos à mesa, mas na cama detesto frescura e mulher que faz gênero. Nas coisas do amor e do sexo prefiro feijão com arroz. E comer, de preferência, com as mãos.