Clave

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Suponhamos que as ondas do acaso te jogassem em uma praia diferente. Nessas em que tudo é espanto. Onde conchinhas minúsculas trouxessem no externo do dorso escritos reveladores, códigos, frases sintéticas, sutilezas, perfumes. No interior de cada uma delas se desenrolariam filmezinhos caseiros. Histórias curtas de gente que você nunca viu, mas que sentisse como se as conhecesse desde que nasceu ou de muito antes.

Mais tarde, no pequeno hotel (sempre há de haver um quarto para descansar ossos e olhos de tanto movimento), ao errar de porta, você desse com a seguinte cena: um salão, cuja fonte de luz indireta não fosse possível distinguir, com algumas mesas ocupadas, circundando um pequeno palco em meia lua a partir do qual a musa de canto suave, roçando a audiência com o veludo escuro da voz, acompanhada de um quarteto (piano, contrabaixo, bateria e trompete), espalhasse vibração tão confortável no ambiente que o fizesse querer entrar e sentar-se.

A musa desce do palco, ondulando entre a penumbra das mesas. Escolhe de maneira aleatória alguns espectadores e os presenteia com trechos de poemas, passagens literárias, slogans antigos com profecias subliminares de felicidade e gozo e, não mais que de repente, ao bater os olhos em ti, diz a frase que você lera em uma das conchas naquela manhã (ou entardecer).

Cada um dos presentes, virando-se em sua direção, o surpreendem com os rostos antevistos nos filmes das mesmas conchas (alguns usando óculos de modelo parecido, com pequenas variações de material e cor).

Neste preciso momento, uma certeza o iluminaria por dentro como um sol, e o sentido da vida — da sua vida — seria finalmente revelado. Mas tendo acordado em seguida, você passaria o resto da vida tentando se lembrar daquele detalhe tão importante bloqueado pela memória, esforçando-se todas as noites por uma pista, pela continuação do sonho que jamais se repetiria, além de um fiapo de melodia e um perfume flutuando anos afora na lembrança.