Belíssima!

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Beleza é proporção exata. Existe na precisão rara em que diferentes ângulos se tocam, em nada de menos. O plástico, a borracha, o dinheiro, a determinação podem nos levar bem próximos dela, mas quando pensamos alcançá-la, a ultrapassamos. É uma Ferrari às avessas.

A verdadeira beleza está presa a um momento (quando escrevo verdadeira, refiro-me à que impressiona; beleza e verdade nada têm em comum, não prescindem uma da outra, assim como não se excluem. Para evitar a confusão, a partir daqui irei grafá-la com B maiúsculo). Feita da raridade que também deve passar, um dia acaba, desmancha, como a vida. Da mesma assombrosa natureza, brota do invisível e existe para desaparecer de repente, mesmo se em declínio já de há muito. Existe para o nada. Existe por existir. Para degustação. Degrada-se quando guardada além da memória e não se presta muito bem a objeto de análise por ser mutante e, muitas vezes, inexplicável. Mas nem mesmo a melhor memória aprisiona o alumbramento que a Beleza pode produzir.

Disfarçar sua decadência é possível, embora não de muito perto; percebem-se os defeitos no arremate. Artifícios para realçá-la são criados desde os tempos de Cleópatra. Nem sempre saudáveis. Às vezes, mortais. O que não mata, nem engorda, pode te fazer mais linda.

Não encontramos Beleza onde ela já não exista naturalmente em alguma quantidade. Daí passarmos com tanta frequência ao plano das ideias e virar Beleza em conceito, arquitetura, invento; estudando a fundo (e em vão) seus aspectos na (também vã) tentativa da imitação mais próxima, da reedição de melhores momentos.

Como tudo que entorpece, Beleza escraviza. Talvez por não conseguirmos prendê-la, possuí-la inteira além de sua representação. A mesma que de tempos em tempos se desvaloriza para, na ciranda das tendências, recuperar valor mais a frente e perdê-lo outra vez, até ser redescoberta. A Beleza gira em ciclos repetidos, hipnotiza, obceca. Pode enlouquecer.

Nos seres humanos, é tão fundamental quanto relativa. Quando plena, não se vale de retórica, fala por si e comanda (Ava Gardner, Paul Newman, Nastassja Kinski). É possível ser linda sem ser bonita (pense em Malu Mader e Gael Garcia Bernal). Acontece de alguém ser lindo, tão lindo, que, enjoativo como doce com muito açúcar, termine nos parecendo feio. É a tal Beleza que cansa, que alguns chamam Beleza vazia (Montgomery Cliff, Linda Evangelista e o Gianecchini dão bons exemplos). No que é estranho também podemos encontrar Beleza, quando, de determinado ângulo, outra face nos surpreende, emergindo do que julgávamos feiura (Rossy de Palma).

O aspecto interior, psicológico, parece contar também. A luz que ilumina alguém por dentro muda a paisagem em que desponta. Beleza, além de estar nos olhos de quem vê, também está nos de quem é visto.

Beleza é uma forma de poesia. Como tal, pode estar por toda parte, em tudo. Tanto nos amores, como nos chinelos.