Diva

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Quem pode perceber o quanto sangramos por dentro no momento da gargalhada?

Quando eu era mocinha não pedia licença, ia entrando onde queria, fazendo as coisas do meu jeito. Minha certeza era o que ia dentro de mim. Se fosse preciso movia montanhas sozinha. Às vezes doía ter de fazer tanta força sem ajuda de ninguém. Doía tanto que eu pensava que não fosse aguentar. Mas aguentava. A dor podia ser tudo, menos incômoda. Do meu jeito, sempre consegui o que quis.

Já o prazer, sempre rápido, me expunha à consciência da brevidade da vida, coisa que eu nunca gostei de lembrar. Me irritava profundamente saber que tanto esforço poderia me levar para o mesmo lugar dos que não levantavam uma palha.

Olha, nunca fui boba, sei que a única justiça que existe foi inventada para punir quem pode se destacar, da mesma forma com que mantém protegido quem está por cima. Como eu já disse, nunca tive medo de pegar no pesado, mas o peso do amor eu achava insuportável, então elegi o ódio para sustentar minha combustão diária. Sempre fui uma pessoa prática. Sempre deu certo. Tanto, que parei de sentir. Me esforçava tanto para não sofrer com as coisas que sentia que, um belo dia, descobri que não sentia mais nada. Considerei isso um presente de Deus, sabe?

Com a vida ganha, passei a me preocupar mais com esses detalhes todos da chamada boa educação. Decidi então mudar minha imagem, recorrendo aos serviços de uma senhora famosa à época como uma espécie de salva-vidas social.

Ter ciência de como nos percebem, quase sempre diferente do que somos de verdade, pode paralisar alguns. Não no meu caso. Fui impondo minha nova persona de forma suave, com segurança e paciência. Em alguns anos, quando dei por mim, havia sido transformada em ícone das boas maneiras, dos altos valores burgueses.

Por essa época, com algum tempo livre, tomei gosto pelos estudos. Intuía que de nada me adiantaria o verniz perfeito sem uma estrutura real por baixo. Um dia, por uma bobagem, tudo poderia desmoronar, e na minha vida sempre trabalhei para construir coisas sólidas.

Refinadérrima. Educadíssima. Espírito acima de qualquer suspeita, ninguém se lembrava mais daquela garota ambiciosa que fazia qualquer coisa para conseguir o que queria. Que muitas vezes roçava a vulgaridade

Não se espante, mas casei-me cinco vezes. Todas com homens dos quais eu não gostava tanto. Eu era a amada, a desejada. Casei um pouco por compaixão e, lógico, porque me era conveniente. Todos tinham nome e posição, mas eram tão ocos de força e de coragem, tadinhos! O único que… estou indo rápido demais?

Bom, eu já tinha aprendido que olhos treinados ou naturalmente apartados da alma podiam mentir muito bem, mas sentia que arrancar à força a fantasia que aquece um peito vazio poderia levar à morte na desolação mais gelada. Mesmo que, no fundo, no fundo, eu não me importasse tanto com eles quanto ao bem que eles pudessem fazer para minha imagem, sentia essa culpa pesada demais para carregar sozinha. A culpa de ser alguém seca de afeto, essa estátua viva. Foi aí que me dei conta de que no fundo do meu não sentir tinha coisa se mexendo.

Agora que sou uma senhora, uma viúva respeitável, sinto necessidade de me livrar do peso morto desses acessórios inúteis de protocolo, distinção etc. Continuo a pedir licença, mas, mesmo sem permissão, vou entrando. Ai daquele que me desrespeitar!

Hoje penso diferente. Completamente. Mesmo que a gente tenha aprendido desde o berço a esconder de nós mesmos o que sentimos, o que somos de verdade, acredito que só as emoções podem nos salvar. Só elas. São a razão da nossa vida.

Tenho andado deprimida além da conta, sabe, filha? Demais. Minha memória também não anda boa. Eu, que já fui a mulher solar cantada por cronistas e poetas, ando me apagando em tristeza.

Você acha que o meu caso tem solução? Que antes de morrer eu ainda vou conseguir amar?  Não me importo de acabar sozinha, desde que não parta incompleta.

― Vai sim, dona Diva, vai sim. Olha só quem veio ver a senhora.

― Já deu a medicação pra ela, Jandira?

― Dei, doutor. Ela acordou agitada hoje, viu? Não parou de falar até agora.

― Bom dia, mamãe. Como a senhora está se sentindo hoje?

― Ah, como eu queria ter tido filhos! Um assim como você seria tão bom… você é bonito! Muito mais bonito ao vivo, sabia? Adoro o seu programa. Adoro! Falando nisso, você não deveria estar gravando a essa hora?

― Mamãe, eu sou seu filho, o Eduardo. Eu sou médico, lembra?

― Eu não tenho filho nenhum. Eu… ah, mas vocês são mesmo todos iguais, não é?! Eu já disse a vocês que não dou entrevistas. Já mandei dizer. A secretária não fez isso? Vou mandar demitir essa incompetente. Ela também está roubando meu dinheiro e minha coleção de sapatos. Outro dia, eu vi, estava usando meus sapatos. Vocês estão pensando que eu estou ficando esclerosada porque minha memória não anda boa, não é? Mas eu não sou boba não, ouviu? Sei de tudo. Tu-do! Doutora, quero embora, quero ir para casa. Pode avisar ao motorista, por gentileza?

― Mamãe, a senhora está na sua casa.

― Chega dessa história de mamãe, moço bonito da televisão. Eu não vou te dar entrevista, não. Não vou! Vá embora, por favor. Doutora, meu guarda-costas está aí fora. Pode mandá-lo entrar e tirar esse rapaz insolente daqui?

― Tá certo, dona Diva. A entrevista fica pra outro dia, então. Eu vou embora. Tenha um bom dia. Se quiser falar comigo é só me chamar, viu?

― Bom dia para o senhor também. Doutora, podemos continuar a sessão?

― Podemos sim, dona Diva.

― Marlene. Meu nome é Marlene. Você nunca assistiu nenhum dos meus filmes? Aliás, quem é a senhora mesmo? Como foi que entrou aqui? Eu vou ligar pra recepção dessa espelunca é agora! Segurança, socorro! Tira essa mulher daqui!