In a animal mood

corujamor

O estádio onde eu treino abriga nas árvores do entorno uma grande variedade de pássaros que enche o ar da manhã de loops orgânicos. A sinfonia minimalista é um emaranhado de piados fora de sincronia, mas bem mais confortável de ouvir que a barulheira do caos urbano.

Barulho de passarinho é como som de chuva, tem a tendência a se transformar em uma espécie de ruído branco que fica de fundo na paisagem sonora, com o qual a gente acaba acostumando e afastando do centro da percepção auditiva, ocupada com outras impressões do ambiente.

Acho um exercício interessante ficar prestando atenção nesse cenário de fundo. A repetição constante dos loops e a nossa mudança de perspectiva criam um efeito de mantra, rola uma espécie de meditação dinâmica, que desestressa e dá até um baratinho. Acredito que seja um estimulante natural para o cérebro, interagindo bem com as endorfinas que a corrida libera.

Entre as espécies que vivem no estádio estão um casal de corujas igual a esse aí em cima, que fica me assistindo correr. Eu nunca tinha visto uma coruja de perto, nem ouvido os guinchos delas. Pra mim, coruja piava e só. Depois que comecei a reparar mais nelas (e elas em mim), acabou rolando uma tentativa de aproximação entre as partes. Elas passaram de um muro distante (que separa o estádio do campo de beisebol vizinho) onde costumavam ficar, para o alambrado que margeia a pista. A cada volta, eu ensaiava um ruído, um gesto diferente, tentando chegar mais perto.

Embora tenha feito progressos, desencanei depois que uma delas me atacou, achando que eu ia invadir o ninho onde dormiam seus filhotes. Minha intenção, algo franciscana, não era de conversar com bicho algum e menos ainda roubar algum dos filhotes, só queria fazer um carinho, sentir a textura das penas, essas coisas. Um capricho bobo, infantil. Acho que é porque é um bicho exótico (a tonalidade amarela dos olhos é impressionante) e que me desperta uma espécie de instinto maternal.

Por coincidência, ontem lembrei dessa história enquanto navegava. Dali a pouco, lendo o blog do David Byrne, me deparei com um post antigo sobre um filme do Werner Herzog, Grizzly Man, que conta a história (real, é um documentário) de um casal que tentou se tornar amiguinho de um urso e acabou comido por ele. O cara, que começou com essa história e depois introduziu a namorada na coisa, filmou todo o relacionamento.

Isso também me fez lembrar uma conhecida que cria um pitbull no apartamento, que dorme no quarto dela, junto com o marido e o filho recém-nascido! Loucura total. Disse isso pra ela, que não deu importância alguma, afirmou se basear na certeza de que o cachorro a ama, que foi criado por ela e não vai fazer mal algum e blablablá, como se isso representasse alguma coisa. Imagina se o bicho tem um pesadelo, ou alguma coisa do gênero, e pula no pescoço de um deles no meio da madrugada?

Não sei não. Confiar em um animal perigoso na base do te dei amor, você vai me devolver amor, se nem com gente isso funciona direito, é alimentar um romantismo de consequências arriscadas.

A realidade morde. E pode estraçalhar as melhores intenções. Melhor permanecer a uma distância segura, se contentando em observar os movimentos, a beleza, o comportamento desses bichos, como fazemos com pessoas que nos despertam os melhores sentimentos, mas sabemos ter o caráter de natureza bem pouco confiável.

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