Contemporânea

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para Laura

Então, ele disse “abre, abre tudo. Aproveita que faz sol”. Na verdade, eu só esperava um dia claro desses. Depois, subi as escadas decidida a arejar também o depósito na laje (que o corretor chamava sótão, com o escandir inseguro das sílabas mal disfarçado, aquela espécie de vergonha em pronunciar uma palavra sem uso ou que soe falsa por sustentar argumento oco), mas lá tava tudo limpo e no lugar. Só a poeira quase imperceptível filtrava a luminosidade da fileira das telhas de vidro.

As casas estalando de novas no bairro visto do alto e que pareciam ter brotado como cogumelos depois da chuva (cadê a crise no mercado de construção civil?), o vigor da luz que entrava, nada disso me surpreendeu como aquela organização. Sem ideia de quem pudesse ter posto tudo no lugar, lembrei que faxineira não entrava em casa há pelo menos um ano. Ou dois. Talvez um pouco mais. Cuidava sozinha de tudo há quase três anos, então só podia ter sido eu mesma quem fez o serviço. Quanta coisa eu faço que fica de fora do cômputo do cotidiano… “A gente coloca tudo no débito automático, depois esquece a dimensão do que gera e do que gasta”.

Deslocada pela satisfação agridoce em descobrir que minha noção de valor pessoal foi junto pro saco no meio da lida; que viver virou um checklist sisífico, ainda que satisfatório; que aquela situação era e também não era culpa minha (Zeitgeist, baby, fazer o quê?), achei um pen drive que julgava perdido; dentro dele, arquivos dos quais também não me lembrava. Em um específico, impressões sobre aquele dia quase perfeito à beira d’água, imersa no silêncio das coisas resolvidas e sob a densidade do céu absolutamente descomunal, às luzes de um abril aparentemente tão distante mas separado de hoje por não mais que quatro anos. O dia em que eu finalmente compreendera tudo. Tudo. Com clareza solar. Que ao entardecer, quando todos chegaram para o parabéns, arquivei no porão do inconsciente junto das quarenta e duas velinhas sopradas. Que seria da minha vida sem a sombra de alguma dúvida?

Parece que tanto tempo passou desde esse dia. Um tempo em que celular com câmera e outras funções me parecia consumismo bobo. No momento, me corrói a angústia de optar entre experimentar o Android ou continuar no iOS. É sério. Preciso de um novo smartphone, com mais capacidade. Por mim, usaria um celular comum e fim de papo, mas é que eu pre-ci-so carregar documentos e processos digitalizados, e-books para as viagens longas, responder e-mails, assistir aos lançamentos recém baixados, meu sudoku, músicas para salas de espera… Preciso tanto de mais tempo pra mim. Os dias parecem cada vez mais rápidos.

De pé, no meio da sala, seguro e fixo o pen drive. “E daqui mais quatro anos?”
A geopolítica deverá ser outra, os browsers talvez tenham sido unificados, assim como os impostos. Ainda existirão abelhas? Vestibular? Fumantes irão pra cadeia? Talvez todos os gadgets tenham sido engolidos pra dentro do iPad (finalmente vou poder ver meus filmes em qualquer lugar, numa tela de dimensão decente?!).

Minha única certeza é que ainda haverá livros de papel, grampos (legais e ilegais), medidas provisórias, reuniões inúteis, cataventos e salas de cinema para me confortar, ainda que seja necessário atravessar a cidade no meio de alguma tarde difícil de passar para poder suspender minhas dúvidas até a próxima sessão, assim que me sentar na poltrona que, espero, esteja bem maior, em acordo com os novos padrões ergonômicos (sou mais alta que a média e gosto de espaço). Tenho fé na cultura crescente da usabilidade para além do mundo virtual.

O resto, a leveza na consciência, a paz de espírito que volta e meia me invade, vai ficar ali no espaço entre o telhado e a laje (“só-tão”) esperando pelo próximo cara que vai acordar no meio de um domingo de início de outono e pular da cama me ordenando, “abre tudo. Aproveita que faz sol”!

E eu, fazendo a fêmea apaixonada e aquiescente, seguirei suas instruções, satisfeita por fora e ainda mais feliz por dentro por saber que a fila anda como os domingos se sucedem, quase sempre iguais, quase sempre oásis na aridez inerente ao deserto da existência que mal ou bem tem que ser atravessada. Noites de domingo me angustiam. Talvez um dia eu me permita dirigir mais devagar e trabalhar menos. Por enquanto, não consigo parar.