Mitose

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Diziam dos que iam pra lá, que não voltavam. Chegou. Nunca havia frequentado lugar parecido. Dos primeiros a entrar, não ficou mais de dez minutos nadando pelo fluido que se movia sobre o tecido macio até se chocar contra algo mole que o envolveu.

Foi muito fácil alojar-se ali. “Fiz com o pé nas costas”, pensaria se pensasse e tivesse já pés ou costas. De repente, começou a sentir um vago não sei que. Coisas desconexas o invadiam vindas de não sei onde, que parecia ser do fundo dele mesmo.

À medida que tomava forma, passou a perceber a marcação repetida das coisas e dos impulsos. Estabelecia-se um passado. A ideia de futuro ainda não o habitava. Pensamento algum se abrigava ali. Nunca experimentara o (des)conforto de raciocinar.

Sentir estava fora de questão, mas também nunca sentiria nada ruim, jamais seria apavorado por hipótese alguma. Vivia a tepidez da escuridão. Livre de qualquer entendimento, da construção de um edifício a uma ação de despejo. Quando a luz entrou, uma coisa dura cortou seu corpúsculo ao meio. Embora formado na hora certa, estava em lugar errado, ameaçando a vida da hospedeira.

Tivesse tido tempo, veria mãe e pai separados na sequência dos anos. Se lhe fosse possível algum discernimento, teria aprendido que o maior amor do mundo é incapaz de garantias, que nenhuma vitória é definitiva e, quando estivesse mais velho, que fracassar pode ser, na química estranha dos afetos e do mundo, uma forma diferente de vencer.