Rex

ericohiller

Tive muitos amores, restaram-me dois. Propus um triângulo em que a igualdade emparelhasse nossos sentimentos. Recusaram, enxergando um coração invertido. Eles não acreditam na isonomia sentimental. Dizem que os tempos não estão para experimentações.

Sou cachorro velho, mas isso me fez pensar se talvez eu também não acredite mais no que sinto. Talvez mesmo esses sentimentos nunca tenham existido. Talvez, na mesma intensidade de forças os amores se anulem, não possam existir independentes da hierarquia. Talvez.

Me fizeram escolher, escolhi a porta da rua. Não tenho nada com isso, se eles não se entendem com a geometria das coisas. Esse negócio de dono, de fazer de conta que não sente o que a gente sabe que sente, não é pra mim. Com a vida não tem essa de coleira. Meu proprietário são meus sentimentos. Guarda-chuva não te protege de molhar o pé. Vadiar enquanto eles roem o osso duro do ofício de existir é pra quem sabe viver.

Se me querem amestrado, vacinado, que fiquem em companhia de seus finais felizes e contas a pagar. Raça não me diz nada, meu coração é vira-lata. Minha única certeza.

Vou morrer sem entender o que eles esperam de alguém como eu. Se querem um cachorrinho pra levar essa vidinha besta de alimentar ilusão com ração e biscoito, banho e tosa, xixi e cocô num passeio noturno rápido, por que não compram um? Esse negócio que chamam de sucesso, que eles moldam e encaixam igual lego onde falta sentido, não funciona comigo. Sou da rua. Sou da vida. Sou o Rex. Au, au.

Me fizeram escolher. Escolhi. Agora, só volto amarrado. E fujo de novo, na primeira oportunidade.