Página Virada

tia

A fruta pede para ser mordida antes que apodreça. Quer subir aos céus como um grito. Marici tinha 17 anos quando sentou no colo do cunhado e perdeu o cabaço metafórico. Sim, porque cu não tem aquela pelinha indecente de hipócrita que garantia tantas uniões no passado. As donas com larga quilometragem de boca e rabo, mas ali na frente tudo Ordem e Progresso. Preservada a fachada, iam-se anéis, dedos e que tais. Entravam na igreja lindas. E de branco.

Hoje, me ofereci ao Osmar. Deixei que me beijasse e me tocasse a intimidade. Quanta saliência! Fizemos por trás. Ele disse que meus seios parecem duas mangas; perfumados, maduros para a chupada.

Fechou o diário da mocidade, com 85 anos e um problema horrível de hemorroidas, não podia nem pensar em sexo anal. Mas era só o que pensava. Tanto, tanto…

Marici naquele dia acordou triste, tinha fumado muito no sonho, a cabeça doía um pouco. Levantou mais cansada do que quando foi deitar. Ficou na cama um tempo pensando em porque sonhava tanto que fumava se já fazia décadas que tinha largado o cigarro.

― Doutor, eu estou com uma ideia fixa de coisas sujas. Será que não é aquela doença do Roberto Carlos?

O médico receitou sertralina e caminhadas no calçadão.

Marici, da pá virada que era, tomava uns chopinhos no final da caminhada. Ficava no balcão de um boteco GLS puxando conversa com os moços.

― Sabe, quando eu tinha tua idade dava mais que chuchu na serra. Mas sempre em família. Cunhado, primos… eu era vanguarda, sabe? Mal falada que só! Isso porque era tudo pela retaguarda, hein?! Mas homem, ó… sabe como é, né, filho? Depois dizem que mulher é que é fofoqueira.

Que delícia, tomar antidepressivos e andar. Depois chope, chope, outro chope, fumar um cigarro. Dois. Vazio o maço no lixo, abria a caixinha nova com volúpia de criança descascando o presente. O melhor de fumar, além de gesticular com dedos ocupados, era o momento de abrir o maço. O pior era todo o resto, por isso não fumava há tanto tempo.

― Se digo que tenho saudades das tragadas estou mentindo, o cheiro de mendigo que fica na gente me dá nojo. Mas acho tão charmoso, me lembra transgressão. No meu tempo, mulher fumando era feio. Deixar entrar pelos fundos, então… imagina. Bom… hoje fumar é feio de novo, né? Parece que tudo que é bom vai sendo proibido de novo. É uma ditadura. De outro jeito, mas é ditadura, sim. O mundo gira, gira, e volta pro mesmo lugar.

Hoje encontrei camisas de vênus em uma gaveta da penteadeira de mamãe. Fiquei chocada.

― Eu era tão inocente… lendo essas coisas é que me dou conta. Eu acho que todo mundo devia escrever um diário.

“Corta! Obrigado, dona Marici, ficou ótimo. Seu depoimento vai ser avaliado pelo Manoel Carlos. Se for aprovado, antes de ir pro ar a gente entra em contato, tá bom?”

Não deu tempo. Acometida de parada respiratória no mesmo morno final de tarde, resultado da overdose de chope com sertralina, foi enterrada no dia seguinte.

Durante o velório, o irmão do meio, Márcio, puxa o mais novo, Moacir ― que contava piada de travesti numa rodinha ―, para um canto e revela, de supetão, entre um pouco de tudo que encontrou no diário da irmã, o mais chocante: Marici tinha morrido virgem.