Pandora

no café

Há muitos anos, por não encontrar-lhe utilidade, guardei o amor em uma caixinha daquelas antigas. Esquecida no porão, aprisionou possibilidades de desconforto junto às de arrebatamento. Uma caixa de paroxismos na qual confeitos delicados, julgados perigosamente aditivos, perdiam sabor enquanto parte importante da vida seguia adormecida.

Hoje sei, não há nirvana possível que não brote de dentro da gente. Ninguém preenche o vazio que é nosso.

Existe uma padaria aqui perto que serve um expresso tirado com alma. Parece que o atendente, de olhos tristes, marinados em ausência, triturou todo seu entusiasmo e nos serve escaldado, acompanhado pelo minúsculo mantecal com recheio de goiabada mole.

Existe coisa mais sublime que compartilhar? (claro que não no sentido feicebuquiano do termo, esvaziado e vulgarizado) Mesmo na crueldade em dividir culpa indigesta como refinada iguaria, pode-se encontrar até alguma caridade. A nobreza em preservar-se, negando-se ao desejo do outro, é que é torpe. Perfumes não evoluem como vinho, evaporam, perdem a força do fixador.

Tomo meu café. Como meu doce. Retoco o batom e sigo pela metade, aos quartos, sendo o que dá pra ser, enquanto inteira não é possível. Não me entregar ao amor faz parte. Estar aberta 24 ao sexo é da minha profissão (Pandora. Aberta 24h. Vem me conhecer por dentro. Descubra um universo de prazeres proibidos), mas minha memória ama o amor. Começa a apagar as lembranças ruins para não permanecer em mim o vício da amargura, abrindo lugar ao novo. Algum sempre chega. Igual ao óvulo que a menstruação cospe. Aos mauricinhos que me ligam sem parar no meio da tarde. Ao jornal, às contas, à vontade de ex-fumante de dar uma tragadinha só e que, quando aparece, deito e espero passar.

Mesmo que aquele amor novo, totalmente inédito, novo-novo, ovo do épico, de gema dupla, nunca venha, um ovo simples virá. E irá embora, no espaço, quando muito, de um mês. Como uma gravidez que aconteça sem querer, um freguês insistente que enjoa.

Algum novo amor sempre chega em pastel desbotado, contido. Diferente daquele carnaval de tons espontâneos, criador das formas desconhecidas paridas ao acaso nas combinações de antigamente, de antes de proteger o amor dos meus olhos gulosos para, num talvez, comê-lo com o gosto futuro e educado da maturidade, depois que largasse essa vida, estivesse ela ganha. O que também parece ir para cada vez mais longe.

Isso me lembra que a bocetinha de Pandora no porão continua trancada, que a virgindade é o apodrecimento do possível. Meu peito parece chumbo (não, não é do silicone não, gato). Sem amor, não consigo mais viver.

Eu vou me jogar nesse porão, procurar e abrir essa caixa. Experimentar todos os sabores, males, posições. Se eu me negar à fecundidade da entrega, sei que não verei a luz. Pelo menos não a luz plena (já reparou como parto sem dor é escolha típica de pequeno burguês, como as sinhazinhas classe média enchem a boca quando pronunciam cesárea com a mesma pompa brega com que exibem intimidade com alguém importante?).

Tô ficando velha. Viver eternamente em um mundo à meia-luz deprime. Dá sono. Eu quero mais, enquanto dá para ter. Viver, pra mim, tem sido um exercício diário de estofar um oco sem fundo. Sinto que a vida vai e o oco continua. Existir é esfolar-se, regenerar, degenerar, ir (falo bonito, né? fiz faculdade também, gato).

Quando eu abrir essa caixa, sinto que a satisfação que vai me atravessar será tamanha que desse dia em diante outra luz vai parecer irradiar-se na paisagem. Como se eu estivesse encharcada de ácido, ecstasy… sei lá. Vai botar pra correr essa melancolia antiga e inefável da consciência do fim, sempre presente como um efeito colateral. Serão momentos de felicidade tão intensa que só a ilusão mais delirante teria poder equivalente em produzir. E meus sentidos me preservarão das tristezas inúteis. E a percepção só terá antenas para o que de melhor brotar das quinas do cotidiano. Vou seguir inteira, cheia de amor por dentro, não importa se correspondido.

Quando eu abrir aquela boceta, vou saber que amar é um estado de espírito. Um bem necessário. Meio e fim em si (Ai, como eu tô romântica).