Branca Neves

branca de neve Era uma vez uma moça linda, branquinha, magra, de cabelos muito lisos, classe média alta e excelente profissional, formada em jornalismo, prestes a ingressar na carreira de apresentadora de telejornal (na redação ainda era assistente, mas de talento promissor). Sua madrasta, ex-miss Brasil e também muito bonita, dependia da pensão do seu pai, com quem havia se casado quando a mãe da moça morreu. Agora que ele estava casado com outra, vivia em dificuldades para manter o padrão de consumo a que estava acostumada.

Por causa do envelhecimento precoce devido ao abuso de drogas sintéticas, vício que dos moderadores de apetite evoluiu à cocaína, a madrasta precisava de dinheiro para, entre tantas outras coisas, uma recauchutada geral. Seu sonho era ter o próprio talk-show, apresentado nas noites de sábado em um canal pago, e voltar às capas das revistas de celebridades, aos convites V.I.P.s e à dinheirama farta ganha sem suor ao emprestar o nome-marca a produtos, endossando serviços variados, etc.

Sabendo que a enteada tinha contatos quentíssimos no meio, a procurava insistentemente, o que acabou irritando a moça que lhe bateu o telefone na cara numa manhã de domingo. Possessa, a madrasta jurou vingança. Na noite daquele mesmo dia ― em transe pré-over sobre o grande espelho art-déco, que apoiara na mesa da sala de jantar para esticar suas infindáveis carreiras ― a madrasta ouviu em alto e bom som da boca da criatura do espelho quando perguntou quem poderia fornecer-lhe mais e melhor cocaína:

“Branca Neves tem a mais pura.”

O espelho foi além, contando que a enteada estaria de caso com um antigo namorado de adolescência, agora chefão do tráfico na zona norte da cidade. A madrasta, ainda mais ouriçada, ameaçou pôr o coração pela boca. Mataria dois coelhos de uma só cajadada. Conseguiria o pó classe A e a influência da enteada para avançar em seus planos de dominação midiática das massas. Tinha o piloto do programa já pronto, gravado no sofá da ampla sala de visitas com convidados ilustres como seu estrelado cabeleireiro, a cozinheira que tinha trabalhado para um famoso cantor no exílio, e a nova vizinha, modelo-atriz, ex-BBB.

Para a reaproximação, começou com uma gentileza. Comprou no eBay um iPod do modelo clássico e o enviou para Branca, com todas as músicas do U2, grupo do qual a enteada era fã desde a adolescência. Lembrava-se perfeitamente do dia em que ela revelou que o namoro com o novamente atual caso iniciara-se sob os acordes de One, numa festinha do condomínio fechado em que então viviam.

Mas ela não contava com o poder do fascínio escravizante da Apple sobre a moça audiólatra. Branca Neves não conseguia mais parar de ouvir as músicas. Ficava praticamente o dia inteiro com o aparelho no último volume na orelha, até durante o serviço.

Numa manhã de sábado, enquanto fazia sua caminhada pelo bairro, foi ameaçada por trombadinhas que queriam levar-lhe o aparelhinho. Desesperada, saiu correndo. Ao atravessar a rua, acabou atropelada por um caminhão. Os garotos fugiram com o iPod, que voou longe enquanto a moça era esmagada pela Scania.

No momento em que ela morria sob as rodas do caminhão, a madrasta estertorava sobre o espelho, em overdose. Tinha mandado quase cinco gramas durante a madrugada, mais um litro e meio de uísque nacional, enquanto fazia planos para o programa que antevia em delírio. O espelho apoiado sobre a mesa refletia o lustre no teto, calado, enquanto este rutilava aos primeiros raios do sol.

Leiloados para pagar as dívidas da madrasta, foram parar num antiquário e depois vendidos para a produção de uma rede de TV, onde viveram felizes para sempre como elementos decorativos nos estúdios de um grande complexo cenográfico.

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