Fenômeno

richiehavens

(inspirado por Bob Dylan; dedicado à memória de Richie Havens)

Se o cigarro ainda fosse permitido, dezenas de brasas pontilhariam no ar o semicírculo em frente à arena, desenhando nas parábolas diagonais em sobe e desce constelações por trás das quais se esconderiam universos inteiros, que haveriam atravessado a cidade ― alguns, continentes ― para se encontrarem ali, à espreita dos instantes de raridade; com sorte, de revelações únicas. Outros, há meses aguardavam sua vez de assistir ao espetáculo tão incensado quanto simples.

De boca em boca alçado a paradigma, tornara sinônimo de vulgaridade tudo que fosse superprodução. À pirotecnia, impunha-se o poder da substância. A promessa do absoluto flutuava em meio a perfumes caros. A palavra ARTE ocupava, lotava ao limite do incômodo, cada centímetro cúbico daquele teatro.

Todas as noites, quando as luzes se apagavam e o holofote jorrava o rosa tênue, ele exibia a sensibilidade à flor da pele para uma plateia de distintos insensíveis que pagava quanto fosse para ter os olhos lacrimejantes pejados de compaixão sobre seu rosto magro e comum, uma cara que poderia ser entrevista nas cozinhas e corredores do mundo sem despertar curiosidade alguma, mas que ali encerrava mistérios que falavam de abismos, píncaros. Lá, era mito e herói.

Todo artista é uma espécie de puta sagrada. Exceto os abençoados casamentos de conveniência e as hipocrisias comerciais, quase toda forma de prostituição ― heroica, ainda que tragicamente divertida ― é honesta. As putas não mentem além do gozo simulado; às vezes, nem aí. Santos e putas comungam a mesma essência de bondade.

Diferente de um manequim de vitrine, em que se assentam roupas de acordo com as tendências da estação, ele repetia o mesmo repertório há anos. A dor mais esperada? Sempre a mais universal. E ele sabia ser clássico. Para isso não pensava demais, nem ia além de estar no momento, suportar o que viesse, de onde viesse. Seria tudo recebido com reverência na intensidade original. A modéstia, tinha aprendido no I Ching, seria a qualidade suprema. Assim, foi crescendo como intérprete, de boteco em boteco à casa de shows mais exclusiva.

Ele cantava expondo a alma todas as noites para plateias boquiabertas. Existia para desfilar sofrimento e êxtases sem par na voz. Como alguém se atrevia a tamanha sinceridade? A apoteose acontecia ao entoar o refrão da canção em que gemia doloroso um “afinal, somos todos iguais“.

Os ricos saiam com a plenitude do investimento bem feito. Despossuídos – convidados cuja cota exigida em contrato ele sempre fazia questão de que o prestigiassem das melhores cadeiras – iam sentindo que um dia chegaria a compensação sob o céu cheio de estrelas, imenso e vazio. Brancos coravam, negros ficavam bege, albinos não sentiam necessidade de cor enquanto o rosa tênue daquela luz se lhes refletisse.

Tinha alguém morrendo ali também, como em cada canto do planeta, mas no palco era diferente, sentiam os corações terminais.  Os mal-amados soluçavam de dar dó no instante em que extra adorados conseguiam se desviar um pouco da sua órbita de tédio, tocados bem no fundo, onde a literatura e as imagens nem sempre conseguem alcançar, mas a música sempre chega. A redenção pelo sofrimento alheio, forma mais primitiva de purgação religiosa, é também uma maneira de amor que a natureza encontrou para ligar a humanidade quando outras não são possíveis.

Depois do terceiro bis, dos gritos, o final do show tinha sabor de fim de caso. Dilaceramento em que tudo revira numa calda saturada de amargura. Como todo fim quando se realiza traz a presença aguda da morte, e a consciência dessa finitude é sempre triste, uma nota de depressão sustentava-se no ar durante o esvaziar da sala à luz cruenta da realidade.

Todos pareciam irmanar-se pela mesma condição, tentando permanecer ligados, ainda que reconhecendo a falta de identidade entre si, apoiados no poder da ilusão. E num silêncio de luto pós-coito, saíam com a certeza de que enquanto a morte física não chegasse, a melhor saída possível seria recomeçar incansavelmente, na luta que todas as coisas travam para não se extinguir.

Ele, que também não gostava de despedidas, ficava feliz. Podia acender seu cigarro e vagar pela noite, mergulhado sozinho no silêncio das pessoas comuns.