Do índio

HavaianasKaiapós

Entre as várias tribos que ainda restam no país, os Pirahã ganharam evidência no meio acadêmico pela sua linguagem. Com cerca de três vogais e pouco mais de meia dúzia de consoantes, ela é composta mais por inflexões sonoras do que palavras.

Pode-se dizer que eles se comunicam cantando, pois usam assobios e gritos em diferentes tonalidades. Sua língua não tem números, nomes para as cores, ou registro escrito. Dessa forma, a elaboração racional limita-se aos fatos do presente imediato. Eles não conhecem sua história além das duas gerações precedentes, não têm mitos ou um deus. Simplesmente, não concebem o futuro como o conhecemos.

E o que está além da vida cotidiana não lhes interessa. Vivem o presente e só. Dormem cerca de duas horas por noite.

Embora tenham contato com o homem branco há mais de 200 anos, curiosamente, jamais foram aculturados. Entendem o português, mas não conseguem se expressar direito nele, como vários de nossos políticos, artistas e homens de negócios. A limitação linguística e de raciocínio abstrato faz com que seus valores continuem os mesmos desde sempre.

Não sonham com um Audi novo, nem com o último iPhone, nem se matam para quitar o tríplex na Vila Nova Conceição. Mas também não ouvem música gravada (como o botocudo do comercial aí embaixo) ou deleitam-se com a poesia e a arquitetura narrativa de um bom livro ou filme. Os Pirahã desconhecem a filosofia e também as concepções artísticas. Como satisfazem os instintos básicos, prescindem da criação que lhes compense as pulsões proibidas (sim, eles fodem com os parentes, com os quais também se casam). Imagino que, como o ato de trepar seja corriqueiro, não fantasiem nada e seu gozo não alcance nem de longe a potência do nosso na escala Richter. É possível que também desconheçam a carência afetiva.

Nelson Rodrigues, que via a morada da felicidade no reino dos supérfluos, não os diferenciaria dos demais animais. Rodriguiano, ma non troppo, acho que os Pirahã devem ser tão ou mais interessantes que qualquer humano desse zoológico de tribos que é nosso planeta.

Fico feliz em saber que no Brasil exista uma delas, refratária a Ivete Sangalo e Débora Secco, sem ouvidos para a discursaiada da cretinália vigarista que empurra nosso país com a barriga inchada de propina, cabeça oca e rabo preso.

Os Pirahã não conhecem a palavra hipocrisia, nem o significado do dia 19 de abril.