Segundo ato

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Sei que fomos ao cinema. Lá, daquela cadeira em frente à tela nua foi que eu entendi o que se passava com a minha vida. Assim, de repente. O filme ainda nem tinha começado. Entendi tudo, tudinho. Era como se um trailer da minha vida passasse na minha cara. As luzes ainda acesas, as pessoas passavam carregando suas cocas, pipocas… sabe aquilo que dizem que quando a gente tá pra morrer vê a vida inteira passar e coisa e tal? Pois é, eu tava morrendo naquela hora. Morri ali, naquele Cinemark cheirando a manteiga, D&G e mofo. Ali, naquele final de tarde de domingo.

Aquela mão peluda sobre a minha significava uma coisa completamente diferente. Olhei a cara dele, não vi ninguém familiar. Não aguentava estar ali. Não queria estar ali (olha, pra falar a verdade, quem escolheu o filme foi ele, como sempre. Eu só acompanhava. Ele sempre jogava a história de que seria bom pra minha formação e blablablá). Sei que foi me dando uma coisa, uma falta de ar, palpitação… vontade de sair andando sem explicar.

E foi o que eu fiz. Levantei, peguei a bolsa, respondi que ia até o banheiro pra qualquer coisa que ele grunhiu e eu nem me dei ao trabalho de entender, e saí andando. Dali a pouco, corria pela calçada, corria que nem uma louca. Atravessei a avenida, buzinaram, me xingaram, entrei no shopping do outro lado e cheguei a tempo de pegar a sessão do filme que eu queria assistir. Olha, você pode nem acreditar, mas não é que o Cláudio tava lá na fila, bem na minha frente, sozinho?!

Lembra que eu falava dele, do tempo da faculdade? Me reconheceu, claro. Perguntou da vida, contou a dele, falei um pouco. Tudo bem rápido (me pediu um autógrafo, acredita?).

Depois do filme fomos pra casa dele. Nada daqueles restaurantes caros e lotados que eu detesto, onde o outro gostava de me exibir. Comemos pizza de alho – isso mesmo, alho! meu sabor preferido – tomamos guaraná, conversamos milhões de coisas. Desde este dia mudei tudo. Empresário, apartamento, guarda-roupa… do resto você sabe, né?

Pela primeira vez na vida tenho a sensação de que, nesse filme, tô na personagem certa. E, sabe, ando com uma sede de palco que você nem imagina! O Cláudio me sugeriu Nelson, eu pensava primeiro em Tchekhov, mas acho que vou de Ibsen mesmo.