A metamorfose

garrafas

Quando Greg despertou, naquela manhã, de um sonho agitado, viu que ainda estava escuro e um frio de geladeira. O mais curioso é que não o incomodava tanto, embora não sentisse os braços nem as pernas. A cabeça era puro vácuo. Aquela sensação de transparência, inexplicável, devia ser uma nova forma de ressaca.

Lembrava que tinha bebido muito numa festa do dia anterior, no casamento da filha de um cliente da agência para a qual fazia uns jobs. Tinha enchido a cara além da conta. Misturou Blue Label com Don Perignon em quantidades sem precedentes e ainda bicou uns goles de cerveja por educação. Ao dono da festa, proprietário da cervejaria que fabrica uma das marcas mais vendidas do país há décadas, não poderia deixar por menos. Elogiou a tradição, o sabor, a cor, e até a comparou em qualidade à beleza da mulher brasileira (Greg é argentino).

Bebia tanto para esquecer um amor impossível que o álcool fazia ainda mais presente. O jeito era beber até apagar. E bebeu. De repente, abriram uma porta. A luz forte iluminou tanto que teve de apertar os olhos, mas estes não se fecharam e ele viu que tinham aberto a porta da geladeira.

Estava dentro de uma geladeira. Era uma garrafa de cerveja entre várias.

Ficou mais desesperado ainda quando viu que quem abria a porta era a mulher do seu maior concorrente, um ex-repórter fotográfico que agora vivia de trabalhos para publicidade e revistas masculinas.

Não era possível, mas estava acontecendo.

Greg gritou. A voz não saiu. Esperneou sem ter pernas, agitou o corpo inteiro que não se mexeu. Suando frio, acabou por entregar-se, vencido, ao abridor que lhe arrancou a tampa da cabeça liberando o conteúdo para alegria do casal.

O pior de tudo foi ficar ali na mesa ouvindo as calúnias que o oponente dizia sem poder defender-se, e saber que tinha perdido o job da cervejaria pra ele. Pelo menos faria a figuração como um dos cascos fotografados, pensava, já que o estúdio do colega ficava colado à sua casa.

Mas não aconteceu nada disso. Esvaziado, foi largado na dispensa e, dias depois, trocado num dos botecos da Vila Madalena, aonde foi parar em lugar pior, um quintal imundo, cheio de baratas.

De lá, seguiria para uma fábrica em que foi lavado e entregue, com nova carga, a um restaurante na beira de uma das estradas próximas a Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. Resignado, aceitou o destino de casco, pelo menos realizava o sonho de conhecer o tal Brasil profundo de que sempre ouvira falar.

Com o tempo foi perdendo os resquícios de personalidade humana que ainda carregava. Quando deu por si, nem identificação de gênero tinha mais. Com um pezinho no babado, que mal admitia a si quando ainda era gente (apaixonou-se quando fotografou um jogador de futebol para uma revista gay), decidiu soltar a franga radicalmente e mais um pouco. Aos colegas de vidro, agora refere-se a si no feminino. Também deu pra contar lorota, aumentar um ponto no conto, aqui e ali. Costume que deve ter aprendido nas mesas dos botecos que anda frequentando. Ontem mesmo, conversava com uma garrafa plástica em cima da mesa de um bar, de novo, na Vila Madalena (ah, a vida dá tantas voltas).

Tenho andado cheia ultimamente. Mesmo quando vazia, nos momentos de solidão do engradado ou entre meus pares, me sinto cheia. Sei lá, deve ser a idade. Tenho por experiência que quando a gente se pega assim, saudosista, alguma coisa não vai muito bem. Talvez seja aquele trincadinho no fundo do casco, insinuando a aposentadoria.

Bom, não tenho do que reclamar, tive uma vida agitada, animadíssima. Frequentei os ambientes mais diversos, presenciei cenas de todos os gêneros. Ouvi confissões de amor rasgado, servi de arma em briga feia…triste acabar assim. Logo eu, recipiente democrático que do premium ao povão já rodei todas as mesas, servi todas as faixas etárias. Não é justo. Tenho tanta história pra contar. Vidro é material de vida milenar, por que ser esquecida num fundo de quintal?

Outro dia, repousando na mesa de um bar de beira de estrada, nos confins do Mato Grosso, assisti a um desses novos comerciais de cerveja na TV mal sintonizada. Achei tudo uma grande porcaria. Antigamente era bem melhor. Eu posso falar porque, além de carregar as mais variadas marcas — minha preferência não revelo por questões éticas —, cheguei a ser top bottle, estrelando um desses anúncios inteligentes, bacanões, premiados.

É, estou no anuário, meu bem! Linda. Em close. Fiquei um bom tempo naquele estúdio. Estrela máxima. Única.

Mas quer sabe? Sou da rua, gosto é da vida real. Nada me tira a satisfação de estar no meio das pessoas, ouvindo conversas, sentindo que o líquido que sai de mim é o motivo daquelas gargalhadas, daquela festa que só tem fim na saída do último cliente ou quando a bebida seca. E, por mais que o fim se aproxime… bom, ele ainda não chegou, né?

Ser dissolvida e remodelada já não sei. Aí já não serei mais eu, sei lá… olha, nunca tive opinião formada sobre essa coisa de cirurgia plástica. Sim, eu sei que todo mundo faz, mas tô tão contente assim como eu sou…

Bem, o futuro ao meu proprietário pertence. Só espero que meu último pedido seja atendido. Gostaria, antes da cremação, ser lançada ao mar com uma bela mensagem dentro que pudesse um dia ser lida por alguém, continuar a ligar pessoas, a razão da minha vida. Além do mais, viver no estrangeiro, outras línguas, outros costumes, até que não seria o pior dos finais. Ai, ai, sempre fui tão romântica…

A pet ouvia tudo sem abrir a boca quando, de repente, o garçom veio e a levou embora, deixando Greg sozinho em cima da mesa do bar, que teria as luzes apagadas e as portas baixadas em seguida.

A escuridão o deprime. O som da grande geladeira próxima, lotada de semelhantes, com seus ruídos e blips ocasionais ecoando pelo estabelecimento abafado, dá uma angústia que comprime o peito de Greg. Peito que ele começa a sentir, assim como as pernas, que mexe devagar.

Abre os olhos e dá de cara com duas enfermeiras e um médico.

― Doutor Rui, ele abriu os olhos!

― Pode me ouvir, Gregório? Se puder, pisque.

― Que aconteceu?

― Você esteve em coma nos últimos quatro dias. Mas se já pode até falar, vai poder sair logo daqui. É só ter um pouco de paciência.

Essa era uma das virtudes que ele não tinha, mas decidiu cultivar no lugar do cavanhaque e do mullet, entre tantas outras transformações que tomou coragem para fazer.

Sua vida mudou da água para o vinho (embora tenha abandonado o abuso do álcool para sempre). A experiência psicodélica de quase morte fizera com que “de inseto, finalmente me tornasse homem“, como sempre afirmava quando lembrava o turning point kafkiano.