Primeiro de abril

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Há pouco mais de uma ano, durante uma entrevista, o repórter quis saber qual parte do meu corpo eu mais gostava. Por diversão, respondi com outra pergunta: “qual é a parte do corpo que pode ser transformada radicalmente em minutos?” Ele devolveu um sorriso neutro, enquanto procurava com indisfarçável desespero a resposta que não vinha.

Afastei o topete que me cobria o olho direito e fui direto: “os cabelos”.

Mal sua expressão de alívio se esboçava, emendei, “mesmo sendo um membro fantasma”.

“Como assim?”

“Vou te dar um furo exclusivo, bicho!”

E contei pra ele que era careca desde o início da carreira. Que usava a peruca feita com os cabelos do Marcão, meu melhor amigo, que tinha morrido num acidente de moto etc. Ele me perguntou o porquê de só revelar isso agora, mas evitei, a princípio, explicar que estava sendo chantageado pela minha ex (sempre elas) e coisa e tal. Soltei algumas pistas e depois disse que, cansado de mentiras, entrava em uma nova fase na minha carreira.

“E os contratos com as marcas de cosmético?”

“Acabaram junto com meus hits.”

“Seus penteados sempre foram tão importantes – ou mais! – que a sua música. Você tem noção de que será processado por muita gente e de que pode perder muito do seu patrimônio?”

“Mas processado pelo quê? Falsidade capilar? Como te disse, estou em nova fase.”

O repórter não conseguia conter a excitação enquanto fazíamos fotos com poses bem rock’n roll, em ângulos que destacavam minha cabeça minuciosamente raspada a zero. No meio da sessão em que ele desempenhava a função de fotógrafo (e esses publishers vampirizando cada vez mais seus funcionários, hein?!) fiz umas poses com o gravador dele na mão, pra fazer uma linha Roberto Jefferson, tipo assim, botando-a-boca-no-mundo, saca?

“Cara, essa tua atitude é muito rock’n roll. Essa história toda, velho!”

“Yeah!”

Publicada a entrevista, começou a diversão. E, como canta um colega, foram muitas emoções. Um rodízio de pratos congelados por anos. Vingança saborosa, temperada por picos de ansiedade por mais e mais vingança contra minha ex-gravadora e o ex-empresário, que me exploraram tanto antes de me condenarem à zona fantasma do Rock Brasil. Me largaram lá nos anos 80 e tive de sobreviver fazendo shows pelo Brasil profundo. Até em circo eu cantei.

Expus todos os podres desse sistema decadente. Dei nomes aos bois. Desenterrei polêmicas esquecidas e colegas que viviam no ostracismo, alguns na mais negra pindaíba. Na real, nada era novo. Tudo estava provado e comprovado, mas, à brasileira, foi sendo esquecido e desaparecendo, como os lucros do mercado fonográfico e o jornalismo de qualidade.

Quinze dias depois, no dia 1º de abril, a pegadinha foi revelada: era uma ação de marketing de uma grande empresa de cosméticos, que voltava a me patrocinar. Ela também estava voltando ao mercado no qual fora líder, justamente nos anos 80, enquanto eu reinava.

Convidado a todos os programas possíveis, eu ia desmentindo o semanário e o coxinha do jornalista, ex-detratores que agora colaboravam à revelia para o meu esfuziante comeback (durante a sessão de fotos, com o gravador digital do cara nas mãos, fiz uma pausa pra ir ao banheiro e apaguei parte importante da entrevista). No final, sobrou pra eles. Claro que ganhamos um processo, que o time de advogados de meu patrocinador prontamente transformou num belo acordo e, como sempre acontece nessa piada continental chamada Brasil, quem pode pagar mais se dá melhor.

Meu novo trabalho está na abertura de uma novela, que também é um remake. Meu novo corte de cabelo é um sucesso entre as crianças e adolescentes, cansados de imitar o Neymar.

Os bons nem sempre vencem, mas os melhores sempre voltam. No universo tudo é cíclico. Coloquei essa mentira cabeluda no meu twitter e nunca fui tão retuitado na minha curta vidinha digital. Como bem disse o marqueteiro do Hitler, uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade. Disso eu não tenho a menor dúvida. #ficaadica