Metonímico

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Estou apaixonado por um olhar. Um palmo de coxa. Morro de amores pela voz que imagino dizer vem, toma logo o lugar que é teu, se apossa. Estenda-se aqui. Enrosca tua alma à minha e a rasgue em mil pedaços. Mistura tudo de tal maneira que não reste mais eu, tu, nós, e seja plena a confusão. Cacos do espelho dessa vida de vãs vaidades.

Mas não, eu sei, isso ela jamais dirá. Essa é a voz piegas do meu romantismo exacerbado.

Me dá uma força?! Segura a barra aqui pra mim, pede. Opa! E mais o que você quiser, respondo com os olhos. Estendo a mão em gesto olímpico de falsa nobreza desinteressada. Educada, cede-me a vez: Podemos revezar.

Beleza. Fecho os olhos. Com ouvidos bem abertos me entrego à contagem.

Então, fica assim, faço 3 séries de 15 com 40. Você, 4 de 8 com 15. E não se fala mais nisso.

Há mais ou menos um ano, ecoando sobre meu périplo tedioso no hipermercado, em rasante entre gôndolas explodindo em opções que eu não escolhia, essa voz me envolveu num veludo recheado de promessas confortáveis.

Bastou-me o som sem rosto, como a marca dos biscoitos em promoção que ela me fez levar pra experimentar, e passei a fracionar a compra do mês pra poder ficar mais vezes sob sua influência.

Sempre detestei fazer supermercado, mas esses momentos passaram a uma espécie de transe que alonguei pra solidão superpovoada no itinerário do lotação suburbano, quando procurava minha dona na multidão, se ouvisse timbre e entonação semelhantes.

Na fila do banco, poderia ser ela. Tomando um café rápido, de pé, mexendo na bolsa, apoiada no balcão de uma padaria, atrás de não sei quê. Passeando pelas vitrines a conduzir um cachorrinho, por que não poderia ser a dona da voz? Sei que o microfone deixa um pouco diferente.

Desconstruí a voz de cabeça, subtraindo frequências até encontrar no registro cru da imaginação uma sensação tépida de infância que agora não consigo precisar. No decorrer do mesmo dia, quase caí pra trás ao ouvi-la no caixa eletrônico e, mais tarde, num anúncio de rádio. No meio da noite, a voz narrava um comercial na televisão.

Ela não podia ficar por aí, em tudo que é lugar, vulgarizando-se entre ordens e sugestões aos cidadãos. Eu sabia que era absurdo, mas sentia as coisas dessa forma. Tinha ciúmes de alguém sem rosto nem corpo; no íntimo havia a certeza, mais absurda ainda, de que logo os reconheceria e, então, a ela inteira à minha frente.

Nessa época arranjei um bico como segurança numa galeria de lojas movimentada, ficava das quatro às dez da noite dentro de uma salinha, vigiando monitores. Me ajudava a pagar a faculdade e, o que era ainda melhor, a esquecer um pouco de mim. Num dia indeterminado encontrei o rosto dela. A simetria entre os elementos como eu nunca vira antes, embora familiar, vinha da câmera sobre o caixa de uma loja de bolsas. Me assaltaram de tal maneira como nenhum saque ou quebra-quebra generalizado seria capaz. Aquela curvatura de nariz, o desenho da boca, os olhos ― que depois seriam suplantados por dois outros faróis que me cegaram na academia ― deram as caras outras vezes na semana seguinte, daí sumiram.

A voz, que agora tinha um rosto, tomava minha atenção por completo. Outras partes da minha musa começavam a fazer falta. Ainda não sabia que também as encontraria pouco a pouco, como aos novos olhos, na academia de ginástica que passei a frequentar durante as férias da universidade.

A coisa foi ficando tão absorvente que troquei uma academia por outra. Tranquei a matrícula do curso. Agora vivia minhas manhãs entre esteiras e glúteos e pesos e pescoços e barras e antebraços. Com exceção da panturrilha, ela já estava quase completa quando, durante uma série no leg press, a voz ao meu lado pediu para usar o aparelho.

Era ela.

Minha curiosidade não me deixou terminar, girei o rosto e quase desmaiei ali mesmo.

Cê tá legal?

Ela era muito mais velha ao vivo. E feia. Muito feia. Inconcebivelmente feia.

Daquele dia em diante, alguma coisa em mim calou.

Continuo amando igual, mas ciúme não sinto mais. Melhor assim. Gosto dela com o rosto que escolhi, com as partes do corpo impostas pelo tesão. Embora ainda falte panturrilha à minha musa, sei que é questão de tempo. O tempo que erige e dizima. O tempo que tempera todo amor.