Bi

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Sentia que era difícil caminhar, que ele me opunha resistência, que intuía aonde eu tava levando a gente. Meus pés iam indo praquele lado e ele não podia fazer nada. Não tinha saída a não ser acompanhar. O prédio era baixo. Coisa de uns quatro andares. Construção da década de 70, do apogeu da gloriosa.

― Torturaram muita gente aí.
― Ainda bem que a gente não era nem feto pra lembrar, né?

Eu dissolvido em vinagre. A aflição era por outra coisa, maior, oceânica. Atravessávamos as salas e do peito saía um negócio espinhento feito um leite venenoso que marca a pele. Lá fora, o rosto dela estampada no marinho negro do céu noturno. Como duas pessoas juntas podem se sentir são sozinhas? O medo do vazio empurrando para um vazio maior. Olhei diferente para o céu, as estrelas pontuavam um desenho lindo. A música era boa, mas meu irmão não queria dançar. Dali a pouco, éramos três em uma cabine apertada do banheiro masculino. Três não, dois e meio. Ou melhor, dois; eu, de olhos fechados, tava bem longe dali.

― Por que você não se anima um pouco? Sua amiga deve chegar logo.

Como é chato viver grudado com um hétero. Ainda mais alguém tão lesado, com tendências artístico-intelectuais. O lado bom é que ele não é um bofe galinha. Como eu ia sofrer se ele me fizesse passar pelas situações que eu faço ele passar! E se ele não me deixasse escolher as roupas que a gente usa? Ai… melhor nem pensar!

― A amapô chegou. Quenda lá.

A presença dela iluminou tudo. Dentro de mim alguma coisa revirava junto com um pressentimento estranho que não devia ser por ela. Meu irmão andava esquisito. Quando se nasceu colado, as sensações costumam se misturar no sangue. Vivíamos dentro do mesmo filme absurdo, eu e ele, meu duplo e oposto. Dois troncos que se bifurcavam da cintura pra cima. Dois modos de sentir a vida, dois desejos diferentes lutando pra se impor a um mesmo quadril e par de pernas. A democracia compulsória das pulsões eróticas conflitantes materializava-se no priapismo que carregaríamos vida afora, até que a energia necessária não estivesse mais disponível pra responder aos impulsos dos dois cérebros. Um heterossexual, outro homo. Era divertido. Às vezes, desesperador. Outras, apenas deprimente.

― Nem morto que eu vou participar de um negócio desses?
― Peraí! Foi uma negociação justa. Eu vi pencas de filme iraniano, tá, meu bem?!
― E eu aceitei participar daquelas palestras sobre tendências na padronagem de tecidos para 2013.
― E dormiu o tempo todo. Não pode reclamar.
― É. Mas não fiquei causando!

Mashups (faz tempo tinha ouvido vários destes na coletânea dos melhores de 2007). Quando dou por mim, ela já sumiu. Tomo água. Meu irmão não para de beber. Vamos dar uma volta pelos fundos do prédio abandonado. A festa atravessa a madrugada. Faz frio. Corredores escuros e banheiros e escadas com gente amontoada. Fico cada vez mais tonto, meu irmão só pensa em sexo. O skyline visto do telhado do prédio através da chuva fina; quero subir mais, ele não. Gritos. As mudanças do céu correm na medida da minha angústia. Mais rápido que nossos reflexos, fiapos de luz rabiscam memórias da infância em tonalidades que não vêm mais nas caixas de lápis de cor. Odeio circo. Sempre detestei. Também não tomo leite até hoje, nem com chocolate. Não quero saber das tendências para 2013. O mundo em queda rápida. Um passo em falso, quatro andares deixados pra trás, um pescoço quebrado e algumas costelas fora do lugar. No baque grave, lembro as ferragens se amalgamando e o conforto de ouvir o choque dos automóveis em frente à sorveteria. Dentro de um dos carros, um desafeto adolescente que nunca mais se recuperou. O planeta ainda não tinha carros demais, gente demais, design demais e ideias de menos. A dor entorpecente dilacerando a escuridão com cheiro de desinfetante. A enfermeira se parece com a minha avó. Finalmente, sou um. Um. Só.