A chinesa

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― Toda vez que eu compro coisa chinesa, eu quebro, afirmou taxativa a senhora ruiva que se erguia do chão a minha frente. Convencida da sina inexorável, tentava aliviar-se da pressão psicológica em explicações ainda mais exóticas para a maldição, enquanto sacudia a caixa que continha a tal coisa chinesa para checar se estaria quebrada.

― Sempre achei chique coisa chinesa, sabe? Por mim, só comeria em porcelana Ming.

― A senhora se machucou?

― Não, filho. Caio sempre. Tô acostumada. O problema é que eu acho que quebrei o negócio.

― Que pena. Mas tem tanta coisa chinesa nesse mundo, né? É só comprar outra.

― Mas isso aqui era especial. Raridade. Agora é lixo…

Entre desolação e alívio, abandonou o pacote dentro do enorme cesto, próximo às escadas rolantes que desciam vazias do segundo piso também desértico. Atrasado para a sessão, um tanto aflito por ter de desacelerar ainda mais o passo em consideração à estranha senhora de idade indefinida que surgira do nada num vestido lilás portando um pacote bege, quis acreditar que deveria ser uma atriz encenando uma ação de marketing de guerrilha de alguma loja de artigos chineses. Ela me lembrava a tia solitária que surtava em feriados prolongados e saía andando os bairros vizinhos, abordando estranhos em diálogos desconexos. Tudo por instantes de esquecimento de si.

Decidi ganhar tempo usando os elevadores. Ela me acompanhava como uma sombra.

― A senhora também vai ao cinema?

De olhos fixos no próprio reflexo do espelho interno do elevador, balbuciou em resposta.

― O mundo vai ficar melhor agora. É a Era do Oito. Se quebrou, foi porque estava escrito que assim seria. Estava determinado. A China é tão grande…

Para disfarçar meu desconforto, respondi enquanto fixava alternadamente entre o relógio do lado esquerdo da porta, marcando 16h02, e o terminal de textos do outro lado, indicando finalmente chegarmos ao piso do cinema.

― E vai ficando maior à medida que seus produtos se espalham pelo mundo. Quer um conselho, minha senhora? Compre produtos japoneses. Pelo menos eles não poluem, exploram mão de obra ou reprimem a livre expressão como os chineses. Os chineses estão entre os povos mais venais do planeta.

Arregalou os olhos.

― Ah, não é só doença venérea, não, meu filho, eles têm uns vírus esquisitos lá, deu no jornal outro dia! E também têm pinto pequeno. E gostam de maltratar mulher, sabia?

A porta se abriu. Dei de ombros enquanto respondia, esgueirando-me rápido em direção às cabines da bilheteria.

― Eu disse venal, minha senhora, não venéreo. Quanto ao resto, sou leigo no assunto. Até logo.

Na bilheteria, procurando com pressa pelo dinheiro na carteira, ouço a voz dela ao meu lado.

― Sabia que me casei sete vezes com um chinês?

― O mesmo?!, respondi, fuzilando a mulher com os olhos.

― Nããão! Foram sete diferentes, né? Não sou tão doida assim, asseverou com um sorriso de congelar a espinha.

― Quer dizer que a senhora gosta mesmo de coisa chinesa, né?

― Pena que eu sempre consigo quebrar… filho, preciso ir.

― Eu também. Tchau. E cuidado da próxima vez, aconselhei enquanto me afastava quase correndo.

― Ah, sim. Não se preocupe, gritou. Se o oitavo me maltratar, arranco a cabeça dele também!