Nicotina & Cafeína


cafeteira

Todas as tardes ela perfumava a casa com seu café. Foi antes do infarto, era minha bebida preferida. Havia todo um ritual para degustá-lo. Levava a xícara à boca, sorvia o extrato escuro o mais lentamente possível. Mantinha-o algum tempo ali parado, a língua submersa registrando nuances, depois respirava fundo e deixava que escorresse para o estômago. Tudo em volta se aguçava, o pensamento girava rútilo, gritando.

Espécie de ente abstrato, aquele café enchia minhas horas vazias. Me falava mais à alma que sua desbotada presença de esfinge decifrada em anos de convivência.

Um líquido turvo era o que nos unia. Eu, 30 anos de magistério nas costas; Maria Helena, minha impotência feita musa, semimorta, com o mesmo tempo de serviço, sempre de licença, amparada por um incurável problema nos nervos.

Nosso amor cabia numa xícara. Vendo daqui parece que era forte. Hoje não posso mais com tanto café, então escolhi me abster por completo.

Ela também tinha seu abrigo atrás da fumaça que estendia no ar, expelindo longas tragadas do baixos teores. Acendia um na brasa do outro.

Nunca gostei de cigarro, mas não me importava com o cheiro, até achava bom. A boca que eu quase não beijava mais ela transformou em cinzeiro. Preferi assim, ela não queria, eu não gostava; íamos arrastando nossas bagatelas entre bules e bitucas.

Há pouco, deixou de fumar. E desde que o oco entre nós vem tomando proporções insuportáveis, a recorrente questão da natureza do amor não me largou mais.

O que nos impele à ligação com outro que não seja fuga de si?

Não isento de culpa esse sentimento pela infelicidade existencial na qual nos pode atirar, apenas não creio em sua existência. E vejo muita gente que também parece não acreditar numa força que mobilize tanto as atenções a ponto de tornar-se alvo de histeria coletiva. Sujeitos devotam uma vida inteira em troca de um afago miserável e, não raro, falso. Ou o mundo é sensivelmente tonto ou apraz-se em fazer-se de. Eis aí o que chamam amor, a verdadeira face desse equívoco, maior invenção já urdida pelo nosso subjetivismo.

Imagino que Maria Helena tenha chegado à mesma conclusão, pois se satisfez em servir, representar um papel gratuito tendo garantida a remuneração pelo outro que recusava. Gosta de cuidar da casa. É prática, organizada. No resto do tempo exercita seu arremedo de hedonismo em horas e horas de TV a cabo.

Insegura ao extremo, trava sua contenda à crispação ― como todos nós, mas muito mais intensamente ― com a morte. Cortesia dos fantasmas à espreita por detrás de olhos que engolem a vida como se minutos depois fossem fechar-se para sempre. Perturbada, corre ao encontro da morte para não ser abraçada desprevenida. Maria Helena não cogita perder o controle jamais. Nem por um segundo. Nem o da TV!

Sofre com as prisões de ventre e da alma que não deixa flutuar.

Sempre atribuí à paixão pela fumaça uma compensação a sua falta de leveza. Ela fumava duas carteiras por dia. Parou. Aboli o café e nossa relação nunca mais foi a mesma. O cheiro que restou exala da casa vizinha, alugada para um escritório de contabilidade.

cinzeiro