Na manicure

nan-goldin

Ele nunca me disse que sentia ciúmes. Nem precisava, dava pra ver que não gostava quando alguém era muito simpático comigo. Tentava disfarçar, mas ficava de cara amarrada. Ele bem que era legal quando queria, mas quando ficava chato ficava impossível até de conversar. Eu fingia que não era comigo, mas até que eu gostava, viu? Quem não gosta de ser querida assim com dor? Mas eu fazia que não, fazia que não tinha percebido nada no jeito torto que ele me olhava.

Na primeira vez, foi na mão mesmo, sabe? Na segunda, com um sarrafo. Doeu, menina! Ai, como doeu! Minha cara inchou assim, ó. Cheguei a ficar com um dente mole, que depois até caiu. O povo perguntava e eu mentia, contando que tinha tropeçado no banheiro e batido a cara na pia. Morria de vergonha, sabe? Na terceira, eu nem tava mais lá quando a cadeira voou.

Veio atrás de mim depois, com cara de cachorro perdido, cheio de desculpa, presentes. Mandei à merda. Ele foi. Não sou mulher de malandro, né, fia? Assim não dá!

Daí começou me seguir, me esperar na porta do salão. Me encontrar assim ― sem querer, sabe? ― no caminho. Fazia drama. Bebia de cair, no boteco lá do lado de casa, bebia de cair na sarjeta de madrugada. Me dava uma dó… mas eu fingia que não era comigo, passava batido, linda. Tem que ser dura, né, fia? A gente tem de aguentar, ficar na nossa, senão…

Fiquei sabendo outro dia que casou com uma ex que voltou pra ele. A ex de antes de mim. E, sabe? O povo diz que bate nela de arrancar sangue. É, me contaram. Torceu até o pescoço do gato da coitada!

Mas o pior foi saber que ele tá andando com travesti, acredita? Uma que é até deformada de tanto silicone. E já no meu tempo diz que ele andava com ela. Ele, ela, sei lá como a gente tem que chamar. Ai, me deu uma raiva quando me falaram?! Ai, ai, ai, que ó-di-o!

Quer saber? Eu bem que dava pra ele de novo, viu? Dava gostoso. Mas morro de medo de apanhar outra vez. Eu, hein?!