Imitação da vida

Imagem

Todo mundo sabe que os gadgets para espionagem com pegada 007 invadiram a realidade há anos. E que, ao contrário do cinema, esses aparelhinhos de apelo lúdico não são mais coisa para poucos, entre os movidos por necessidades profissionais e aqueles torturados pela obsessão com o alheio.

Embora grande parte de nós, cidadãos comuns, se contente com o que nos chega aos ouvidos e com o que encontramos exposto nas telas de natureza e formato variados, pelas quais passamos os olhos ao longo do dia, vemos as opções pulularem como pop-ups, oferecendo onipresença em sedutoras prestações ao alcance de crédito, débito ou boleto bancário. De repente, a vida é um filme “and everybody is a star”.

Essa vida editada para consumo, com propósitos que excedem o entretenimento, começou com a fofoca e o desenho rupestre; vieram então os cartazes e os panfletos, e ela se foi sofisticando em meios tão distintos quanto o jornal, o rádio e a televisão; agora, como é de amplo conhecimento, também pode ser encontrada na versão virtual, em sítios e aplicativos. A novidade é que quem a edita é seu próprio consumidor.

Vencido o introito contextualizante, chegamos ao ponto: a vida como ela não é, mas gostaríamos que fosse. Ou melhor, como gostaríamos que pensassem que nós a levamos.

Como temos ciência, a essência das redes sociais, para além da conexão com gente de hoje e ontem, é simplesmente exibir a persona que escolhemos. A máxima exercitada pelos turistas japoneses há décadas foi estendida ao resto de nós: “somos o que conseguimos documentar e mostrar”. Viveremos depois; no presente, estamos documentando.

Que interessa a vida, essa coisa fugaz e inefável, se não podemos compartilhar (termo em franco desgaste graças ao Facebook) o que (e quem) estamos comendo e os lugares que visitamos?

De olho na tendência, vem aí um brinquedinho cujo fabricante espera ser eleito o próximo objeto de cobiça universal: Google Glass. “O” must-have, que será também o embaixador do must-see (e do must-be), foi concebido sob medida para as redes sociais, como o Facebook (que, ouso profetizar, será inundado por curtas-umbigo mostrando o que estamos “vivendo” no momento). Claro que ele terá outras funções de grande utilidade, como a pesquisa em tempo real (mais informações aqui).

Não será surpresa o Google disponibilizar funções apenas plenamente acessíveis aos usuário do G+, um meio de, finalmente, fazer com que sua rede social decole.

Enquanto isso, vamos vivendo o presente no mercado futuro das postagens de comidas que não apreciamos muito, lugares que não gostamos tanto e pessoas que pouco têm a ver conosco, mas alimentam nossa ilusão de ser mais que consumidores insatisfeitos a levar a vida que nunca sonhamos e lamentaremos um dia ter disperdiçado, quando nosso tempo estiver no fim.

“Ok, Glass!”