Skinhead

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― Mas o senhor tá muito bem, seu Benê. Quantos anos mesmo?

― É, fia, passei dos 90 já. Inté perdi as conta.

Olha, esse senhor é de minha responsabilidade, tá? Não tem família, não tem ninguém. Qualquer problema, me avisem, venho buscar. Nada de saúde pública, ele não vai aguentar uma infecção hospitalar. Manda lá pra casa, tenho infra, tenho tudo. Ele é praticamente da família, nasceu na fazenda do meu avô. Se precisar de tratamento especial, mando pro hospital do meu marido. Sem problema. É, esse mesmo. Mais de 50 anos de tradição, imagina?! E tem a faculdade de medicina também, que já formou a primeira turma. Vai ser tratado como um príncipe (sabia que ele é descendente de um rei africano?).

Sabe, não sei quando isso começou, só lembro que faz tempo, bastante. Coisa da infância, acho. Eu sou apaixonada por bolsas. Tenho mais de cem em um closet climatizado lá em casa. A maioria é couro. Crocodilo, cobra, avestruz… de gritar de fashion. É mais que moda, é arte. E é cultura, né, Marcela? Porque arte é cultura, você sabe. Mas, olha, nada supera o couro humano. Entre eles, o negro é o melhor. Mas o negro-negro, azul, zulu. Re-tin-to. Não esses mulatinhos, cor de sujeira. Negro africano, legítimo. A pele negra é a mais resistente que há. Comprei essa bolsa no Congo. Gostou? Eles têm esse costume por lá. Coisa tribal, entende? Coisa milenar. Curtem couro de gente e usam. Acho podre de chique, imagina? Até na biblioteca de Harvard diz que tem uns livros lá encadernados com pele humana. Outro dia li não sei onde que em uma biblioteca americana tem um alcorão encadernado com a pele de um árabe, um líder tribal. Cê acha?! Ele queria que a pele dele protegesse o livro sagrado. Olha só que bonito. Cultura me arrepia, sabia? Luxo. História é luxo, né? Sabedoria, moda, tradição, costumes, política, ciência… ai, tu-do! Olha lá, tá vendo aquela moça? Aquela garçonete ali, com o penteado afro. Que pele linda! Negro é lindo. Fashion. Sempre achei. Acho preconceito um atraso.

― O senhor não se lembra de mim, seu Benê?

― Alembro, cof, cof, cof…

Ah, Carlos Henrique, você é o melhor marido do mundo. E o corpo? Coitado. Não fosse nossa atenção, nosso carinho, tinha acabado naquele asilo horrível e enterrado como indigente. Pelo menos serviu à ciência. Imagina, ser estudado? Cultura, história, ciência. Luxo, meu bem! Eu tenho essa fantasia, você sabe. Quando morrer também quero ser dissecada. E tira toda minha pele também. Faz um sobretudo luxuoso, eu mesma vou desenhar. Vou estrear a bolsa hoje, no jantar do governador. Te amo, viu?! Você não existe.

― Seu Benê, é só assinar aqui.

― Mai sô anarfabeto, fia…

― Não faz mal, assina qualquer coisa. É só pro senhor ter segurança. Vai que ― Deus o livre ― acontece alguma coisa e eu e o Carlos Henrique estamos viajando, o que é tão comum, vai saber… daí alguém vem aqui levar o senhor pro hospital, entende? Encaminha direitinho, com segurança, conforto. Com dignidade, né, seu Benê? Que o senhor merece. Trabalhou tanto nessa vida.

― Ah, fia, cê é tão diferente do seu vô. Aquele era o capeta. Rancava o coru da gente naquela usina.

― Puxei à vovó Cândida, né, seu Benê? Toda família dizia.

― U’a santa. Nossa santa protetora, que Deus a tenha.

― Amém.