Dura Lex

desfile

Para ela o sucesso sempre fora garantido. Vencer processos tinha se tornado seu modo de produção ― não que produzisse alguma coisa além de multiplicar-lhe os recursos e o ódio dos ex-parceiros, rapinados sem dó, mas era a única maneira que conhecia de conduzir seu feudo a império.

A ambição continental não esperava esbarrar naquela ilha de bom gosto. Ainda mais naquele caso, completamente diferente dos outros: o ex em questão desta vez tinha dado uma surra de quebrar costelas na pobre coitada da nova rica.

De grão em grão, a galinha enchia o papo. Já tinha apartamentos que alugava, aplicações, casas de praia. Tinha também um advogado que enriquecia junto com ela, cujo mau gosto lhe traía a origem e o emparelhava à vulgaridade da cliente como um twin set.

O acinte da combinação entre cabelo amarelo ovo e perfume de melancia, doce de entorpecer a razão, bastariam, mas o vão aberto pelo canino defeituoso na fileira de dentes amarelecidos, provavelmente pela nicotina, depuseram definitivamente contra a ré, assim que esta abriu a boca no tribunal expondo o português precário em resposta a uma pergunta do juiz.

Essa vagabunda é culpada, intuiu o magistrado.

Abalado o senso de justiça do fashionista, ganhou causa o acusado (o horrendo sapato caramelo de bico quadrado do advogado da ré, a gota d’água, o irritou profundamente).

O meritíssimo ainda teve a ousadia de terminar a sessão citando a velha máxima de Júlio César: “À mulher de César não basta que seja honesta, é preciso que pareça honesta.

O entorno o entediava à exaustão. Precisava de férias. Sua felicidade era a proximidade da temporada de desfiles. Gozava de antemão, contando os dias para o evento. Naquela madrugada, antes de se recolher o fashion victim anotou no diário que mantinha por terapia em um moleskine: Deselegância é desequilíbrio de forças, raiz de todas as injustiças.  A justiça, que se afirma cega, é VIP ― vê, infere, penaliza; tudo para que se restaure este equilíbrio. Como tal, aprecia sentar-se à primeira fileira nos desfiles e, por detrás dos óculos escuros, reparar nos pés dos modelos. Pobres daqueles que ainda ao envergarem as mais belas criações careçam de eixo. Além do salto, estarão a um passo de caírem em desgraça.