Noite infeliz

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Se eu pudesse escolher um presente especial te daria um gravador de sonhos, como o daquele filme, pra você lembrar sempre dos desejos antigos e dos pesadelos cinematográficos, atando-os em um ramalhete que enfeitasse a mesinha de centro da tua vida com o plástico da satisfação. A gente que é louco pode se dar a esse luxo, né?

Entrar de novo e de novo e mais uma vez na mesma pessoa como se fosse a primeira (o bom é que não há sangue) e acreditar que goza, que o nirvana tá ali na esquina te esperando no conversível de sonho do enlace perfeito; ou arrancar sangue da boca numa mordida, num tapa, só pra variar o tédio tépido dos nossos dias cheios de certeza em jota cristo, no milagre da multiplicação do PIB, na distribuição igualitária da renda e na ciência que se diz exata, sempre para o alto e avante, desde que ninguém perceba que temos prazer em destruir o que é nosso num exercício inócuo de poder frente à morte.

Se o resto de razão me permitisse, te mostraria que meus monstros são tão inofensivos quanto os de um programa de TV, mesmo sabendo que você não iria acreditar porque viu as marcas na minha virilha aquela vez (lembra?).

Agora, se eu tivesse a coragem que você tem em exercitar esse tipo de liberdade como faz no Congresso, trocaria de pele como uma puta (e uma escritora underground mantida por um deputado o que é afinal?) quando anoitece. Subiria ao palquinho da boate para o meu strip-tease do jeito que os adolescentes se atiram aos estupefacientes nas noites de sábado, com aquela fúria desta-vez-eu-vou-fundo-pra-nunca-mais-voltar ou hoje-é-o-dia-em-que-alguma-coisa-vai-mudar-minha-vida.

E assim, meu tudo, olharia para dentro dos teus olhos iluminados pela minha presença ansiada como se fixasse suas luzes pela última vez, tentando esquecer que no dia seguinte acordaria dentro da mesma vidinha de merda que só tende a piorar até a morte.

Eu sei que as coisas apodrecem desde que o mundo é mundo, meu bem. Sei que tudo que sobe cai como o índice Bovespa e a nossa confiança nos governantes. Que tudo é armação desse Maya fajuto que nos forjou nesses tristes trópicos dirigidos por homens-banana.

Vida, eu quero que você e seu futuro-pretérito se fodam de verde, amarelo, azul anil e off-white. Que os vermes da tua falsa consciência de classe te roam até os ossos porosos de culpa. O poder é afrodisíaco pra você, a mim causa cada vez mais engulhos.

Pena que eu te ame e dependa disso de corpo e alma, mas paciência tem limite.

É hora de você escolher de que lado vai ficar.

― Pronto. Salvar e… será que eu envio agora? Vou ver a novela antes, tá quase na hora, é melhor eu… Ué? Quem será?

Sei, sei, sei…arrã, tudo bem, deixa subir, Cícero. Ai, ai, vou correndo calçar os sapatinhos de cristal para receber com elegância, afinal, não é qualquer dia que a rainha-mãe do meu príncipe-consorte decide tanger as doze badaladas e me forçar à realidade na hora da minha novela. Visita mais fora de hora que…

A senhora não quer sentar? Toma alguma coisa? (eu gostaria muito que fosse no cu, no sentido doloroso, é lógico) Não sei do que a senhora está falando, esse apartamento é meu. A senhora está me ofendendo. Inútil é tua nora, sua vaca! Fora da minha casa!

Ai, esse capítulo tá pegando fogo e eu tendo de aturar a conversa mole dessa depressiva. Só eu pra aguentar uma velha solitária por compaixão… por que ela não vai se resolver lá com a matriz? Ah, que coisa, mas essa Elisa é muito cruel mesmo, meu Deus! (que vontade de jogar essa velha daqui de cima) Pode, pode sim, pode vir quando quiser viu, dona Neusa. A senhora é muito bem vinda. O banheiro? Na segunda porta, ali.

Ai, que demora… será que aconteceu alguma coisa? Dona Neusa, dona… ai meu Deus do céu… caralho, dona Neusa, fala comigo!

Zé? É a tua mãe, tá aqui em casa, acho que enfartou, sei lá… pois é pra isso mesmo que tô te ligando… não, não tenho lista telefônica e o porteiro é uma anta… não, eu não, mais é claro que não, Zé!  Tá, vida, tá certo, tá oquêi. Não demora, pelamordedeus, hein?!

― Dona Neusaaaa! Xiii, desencarnou. Será? Filha de uma puta! Tinha que ser no meu banheiro? E bem na hora da minha novela?!