Das musas

presença

Todo mundo precisa de uma musa para levar a vida (além, naturalmente, de estimular a criação artística). Não necessariamente do sexo feminino, nem real. Tampouco em forma de gente. Pode ser coisa; a minha, por acaso, é alguém.

Você vai tomar um café e ali está ele, o ente inspirador, a um braço de distância, mordendo sua coxinha dourada cujo recheio exposto acaba de receber gotas de pimenta do vidrinho empunhado por uma das mãos perfeitas. E, sob o cheiro picante que se espalha, tudo se refaz e refresca.

Embora coisas e sensações possam ser musas, prefiro um avatar que respire, em torno do qual possa gravitar ao menos de vez em quando para sentir a brutalidade da força da vida no coração disparado, na dilatação das pupilas que se recusam a barrar tanta luz.

Para o romântico militante, a musa pode ser um ideal. Marca ou negócio, para os seduzidos pela ilusão de poder simbolizada na posse de bens tangíveis dessa era de überconsumo. Aos viajantes, o lugar em que se foi feliz como nunca. Algo que dê razão à vida, pois é a ela que a musa faz eco.

Se sua musa conduz à morte, o leva a paralisia, a algum tipo de dúvida ou anulação de si, não é musa. Deve ser distorção religiosa, desarranjo psíquico, algum mal da vida profissional, culpa da política, economia ou diversão destrutiva. Musa não machuca. Jamais escraviza. É libertação. Aponta sempre ao céu. Não existem musas subterrâneas. Sempre são, a pino, um sol. A estrela mais brilhante da noite. Tempestade de verão que vem aliviar.

Veículo da motivação para pular da cama mais cedo que o resto do mundo e atravessar madrugadas concebendo em febre novos universos, não há picos de energia que se comparem a seu poder condutor de iluminações. Se tua invenção tem pai, ela é a mãe.

Ter uma musa presente é estar protegido nos momentos de tristeza que nossa finita carne doce tantas vezes é obrigada a suportar. Carrego comigo sua presença como um amuleto contra o cansaço, contra tudo que é feio e fere. Quando uma cortina de dor parece se adensar contra a luz, penso nos gestos calmos com que empurraria para longe qualquer desequilíbrio, no porte seguro diante do qual as assimetrias do destino jamais serão ameaça.

Ouvi sua voz uma única vez. Não sei de onde vem, para onde está indo, nem nome, idade, profissão. Sei que moramos perto. Percebo que não tem muito dinheiro. Economiza nas refeições. Se veste sem luxo, tem bom gosto. Não usa perfume. Os óculos combinam perfeitamente com o rosto anguloso, ressaltando o ar inteligente sobre a beleza clássica. Tem os joelhos mais lindos que já vi. Me impele a continuar criando coisas para um mundo que não as merece.

Minha musa é alguém vivo. Música que toca só para mim. Agora – precisamente há três horas – me fez entrar em casa cantando, querendo escrever. Ainda sussurro a melodia enquanto termino essa linha.