Débito ou crédito?

“Quando ouço a palavra cultura, saco o meu revólver”. Ignoro em qual contexto o famigerado ministro da propaganda nazista, Joseph Goebbels, tenha cometido a frase que lhe atribuem, ironizada em inúmeras variações desde então.

Nessa época hipermidiatizada, em que todos os tempos cabem num só, nos mais diferentes formatos, e a definição de arte ganhou elasticidade a ponto de passar de um estado a outro e diluir-se na correnteza que leva o rio da cultura de encontro ao oceano do entretenimento, tudo acaba (ou começa) em marketing.

Na atual ditadura do entretenimento é natural que marcas e produtos exerçam sua vocação de marchands contemporâneos patrocinando artistas, esportistas, coletivos etc. Todo mundo sai ganhando. Gastando. Mantendo o (capital do) mundo a girar.

Atualmente, quando ouvimos a palavra entretenimento, sacamos nossos cartões de crédito. Ainda que metaforicamente, ao preço de “apenas” alocar algum espaço nas prateleiras da nossa mente consumidora à marca que gentilmente oferece os momentos gratuitos de fruição.

Caso emblemático (e literal) é o do “American Express Unstaged”, evento musical patrocinado desde 2010 pela operadora de cartões de crédito Amex, em parceria com VEVO e YouTube, que promove shows transmitidos on-line e ao vivo planeta afora com bandas e músicos conhecidos captados sob a direção de renomados diretores (ou similares) de cinema.

Arcade Fire com direção de Terry Gilliam; Coldplay enquadrado por Anton Corbijn; Duran Duran, por David Lynch; Jack White dirigido pelo Gary Oldman, John Legend sob Spike Lee, são alguns dos onze shows que já passaram pela série, devidamente registrados e disponíveis.

Anteontem, 18 de setembro, foi a vez dos The Killers, “dirigidos” por ninguém menos que Werner Herzog, subirem ao palco do Paradise Theater, em Nova York, simultaneamente ao lançamento do seu quarto álbum, “Battle Born”.

Da próxima vez que utilizar seu cartão de crédito, lembre-se de estar financiando muito mais do que o lucro estratosférico dessas empresas. A propósito, o show (que não é lá grande coisa) pode ser visto aqui.