1 X 0

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Seguia os movimentos da água rodopiando pra dentro do ralo depois de escorrer pelas contusões do meu corpo dolorido, tentava esvaziar a cabeça debaixo da ducha. Queria que a água lavasse tudo, me levasse embora dali pra bem longe.

O jogo tinha sido desempatado na raça. Gol meu aos 44 do segundo tempo. Os lances voltavam, se infiltrando no vácuo que o jato morno ajudava a criar.

Avançar tinha sido quase impossível com a marcação, o mundo inteiro na minha cola. Um ódio filho da puta me dava fôlego pra correr mais, mais, mais… Chutava a bola com a raiva que queria chutar a cabeça daquele desgraçado. Mirava com a certeza que o instinto de sobrevivência dirige as ações do animal ameaçado que eu era, ferido de morte bem lá dentro, no coração.

E com aquelas toneladas de responsabilidade nas costas, eu conseguia. Com ameaça de expulsão, trairagem, cãibra. Sufocado de desespero. Tinha conseguido de novo. Mostrava meu valor.

Que não sou feito da mesma matéria daqueles caras, sabia desde sempre. Meu aço é mais duro. Mais leve também. Então, por que é que eu ainda não me sentia bem, nem conseguia ficar alegre como todo mundo?

O cheiro de cloro suspenso no ambiente barulhento do vestiário só não era mais irritante que a gritaria da galera porque o perfume do sabonete me trazia lembranças boas, mas a tristeza pesava tanto no peito que eu até chorei debaixo do aguaceiro. Enfiei a cabeça na água e chorei pra caralho, de costas pra muvuca, olhando os azulejos na minha frente. Chorei de raiva misturada com amor, e de pena de mim e de descrença e de cansaço e de inveja e saudade e alívio. Entrei com bola e tudo, socando um a zero no placar, por causa dele, de tudo que ele era pra mim.

Ainda dá um desespero fodido de lembrar que tem um oceano de distância separando nossas pernas que já se cruzaram tanto no mesmo campo, debaixo do mesmo cobertor.

Meu consolo é lembrar da última vez que ele me ligou escondido, bêbado, da concentração do outro lado do mundo. Da saudade na voz quando disse que descobriu  depois do casamento, que a gente jogar no mesmo time tinha sido a melhor coisa que aconteceu na vida dele.