Doadora universal

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Vacas não fazem sentido. Não podem ser deusas, ainda que carreguem genética superior. Mas olho para o pasto e em um canto estratégico, à sombra luxuosa do plátano maior, está Elisa. Passeia tranquila em seu horário de banho de sol, antes de voltar ao cercadinho VIP. Escrava & Grande Campeã, prisioneira da qualidade total, modelo de perfeição orgânica, da USP à EMBRAPA.

Elisa, a vaca fria, distante. Geneticamente superior. Elisa de outra estirpe. Sua progênie entope as gôndolas das mercearias com subprodutos dos úberes eternamente lotados, hiperproteicos.

A moderna engenharia genética está ao lado de Elisa, nutriz da humanidade. Existência urdida em laboratório. Carne e leite 2.0. Elisa produz. Produz. Produz.

Viva Elisa!

Bendita. Sagrada. Vaca.

Nata do abismo social que viceja no campo, que a ganância do sinhozinho prefere deitar fora quando sobra a repartir. Sabor celeste ao rés do chão, prenhez dos altos signos alimentares. A classe C chega enfim aos queijos finos. São os filhos de Elisa, frutos do lulo-dilmismo for export, seu suporte. E salve o crédito farto! E os avanços da zootecnia e da exploração do homem-gado pelo homem-lobo do homem.

Mas, Elisa, onde todo esse melhoramento vai parar? Qual é o fim desse progresso todo? Quantas toneladas de camembert satisfarão o apetite da turba ávida pelo arrivismo gastronômico?

Teu mugir jamais conterá revelações, eu sei. Tuas tripas não nos salvarão do nada original, da ciranda fashion do mau gosto tornado oficial. Tuas tetas, por divinas, não distinguem o bom do mau, alimentando-os generosamente. Também com o corpo inteiro tu te entregas.

Sim, és sagrada. Tu e os teus, por milênios idos e que ainda virão. Mas nem os indianos estão certos, nem nós, Elisa. Comamo-las ou não, vacas apenas e para sempre vacas serão.