13 de Maio

Deu na edição de hoje de um grande jornal, que expressiva parcela de trabalhadores negros (e pardos) ― embora tenham logrado alforria coletiva há 124 anos ― continua vítima preponderante em situações análogas à escravidão. Realidade curiosa e terrível.

Não menos real é constatar que vivemos todos em estado de semi, quando não absoluta, escravidão. Tudo depende do ângulo que se enxergue as algemas. E não só aqui, mas no mundo todo. Talvez até em domínios extraterrestres a prática da escravização do mais fraco, como alertou Stephen Hawking, também exista. Vai saber.

Quem é negro, com ou sem o agravante da pobreza, sabe: na alma e no lombo o couro come do mesmo jeito se não se aplicar com força ao trabalho que lhe foi imposto. Por gerações, cada um tem trabalhado por dezenas, sustentando a (ex)crescente lucratividade de uma elite que, mesmo mestiça (off-white?), brande a chibata quando os resultados do período apresentam o mínimo viés de baixa.

Só pra lembrar, o fim da escravidão que quebrou muita gente por aqui e derrubou a monarquia (e, lá em cima, quase dividiu os EUA), intentava trocar seis por meia dúzia, tornando os pobres escravos em escravos da pobreza remediada (pobres, porém limpinhos com a utilização dos produtos de higiene e etc. fornecidos pela nascente indústria de sua majestade imperial britânica). E conseguiu.

A não ser em vias sexuais, quando consentida, submissão é uma coisa torpe. Mas é assim desde que o primeiro homo, mais sapiens que o semelhante, o colocou de quatro a cavoucar-lhe a gleba agricultável, enquanto aumentava a prole no escurinho da caverna. A coisa só piorou com o surgimento do dinheiro. E desandou de vez na era do consumo desenfreado à americana.

Hoje somos todos escravos.

De nossas vontades mais basais às necessidades neuróticas de superioridade, não nos iludamos, são necessários tantos desejos para ocupar as escalas da pirâmide de Maslow quanto escravos foram para erigir as do Egito.

Além do embate entre raças está a diferença de classes. E mais ainda, nas bordas do âmbito de nossa condição de simbólicos seres carnais, talvez esteja fora do alcance da nossa consciência e natureza viver a liberdade plena.

Buda que o diga. Mas essa é outra história.