Das Luzes

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Entre os clichês em desfile, transparência é uma dessas palavras que nunca saem de moda no prêt-à-porter monótono dos discursos corporativos e institucionais, contrariando a precariedade que salta ao olhos quando as lacunas de assuntos internos vêm à luz.

A regra costuma ser a de que quanto maior a obscuridade do modus operandi da instituição ou empresa em questão mais esta se arroga em praticá-la. Exemplos não faltam.

Em tempos recentes, acuada pela cascata de denúncias de corrupção trans-hierárquica em diferentes ministérios, a presidente, lépida, sancionou o conjunto de normas ancoradas na garantia constitucional de transparência, que promete que as cortinas do passado se abram, retire-se a mãe preta do cerrado e se reconduza o rei congo ao congado que lhe é de direito.

Invocar a “letra da lei” em momentos de crise é tradição Brasil-brasileiríssima, tanto quanto fazer vista grossa à não aplicação das mesmas no resto do tempo. Em especial, quando o céu está de brigadeiro para os que detém o poder.

No carnaval midiático da transparência, só faltou a mulata globeleza. Seria a metáfora nua e crua de nosso eterno mix de marketing, em que os 4 Ps da pilantragem, promiscuidade entre público e privado, pouca vergonha e pretensão vêm emoldurados pelo multirracialismo cordial da terra do coqueiro que dá coco, em que se plantando, tudo dá (e é vendido a preço de banana), e onde acordos são celebrados à revelia do mais fraco entre as partes.

Em 18 de maio entrará em vigor essa lei que regulamenta o acesso à informação pública, cujo efeito prático imediato mais sentido certamente será a bagunça e a impossibilidade em atender aos pedidos de consulta na maioria dos órgãos públicos por ela abarcados, em todas as instâncias.

Só o despreparo estrutural do país para receber a massa de turistas que se espera na Copa do Mundo e nas Olimpíadas promete bater em absurdo o festival de precariedades que se seguirá. No que tange à divulgação de informações de caráter público, óbvio que um serviço claudicante é desejável a nenhum.

Será (será?) momento de experimentar o exercício da cidadania com maior vigor. Embora o espetáculo que vá começar não prometa nenhuma revolução, sem polyanices podemos esperar por algumas mudanças positivas com o que virá à tona.

Mas também seremos servidos por toda sorte de pantomima pelos que nos representam, com (re)ações televisionadas, factoides ready-made e “revelações que mudarão o curso da história da jovem democracia nacional”, repercutindo na blogosfera e nas redes sociais, onde, por mais que se alardeie papel coadjuvante no florescer de novas democracias, reina o anódino a flutuar na superfície dos fatos.

Quando as luzes começarem a acender, veremos.