A bolha assassina

O futuro do passado vai deixando o presente para trás, mas a história continua a se repetir, inclusive para os que fazem a lição de casa por saberem que a recorrência dos fatos nunca é mera repetição, e a ela todos estamos sujeitos.

Num mundo em que os limites entre real e virtual praticamente inexistem para a maior parte da população economicamente ativa, por miopia, louva-se a cada dia mais o segundo em detrimento do outro. Mas a realidade  ̶  que só os tolos não conseguem enxergar  ̶̶  sempre se impõe.

Panaceia de anteontem, as redes sociais já viraram carne de vaca de segunda. Por integrarem o dia a dia de parcela significativa dos consumidores, inspiram falácias tais quais os supostos especialistas em comunicação nas ditas-cujas, gerando contos do vigário travestidos em serviço especializado.

Como todo otário é um esperto wannabe, existe meia dúzia de dezenas de gatos pingados pagando orgulhosos por esses serviços que, deliberadamente, em quase nada resultam. Quando determinados objetivos de comunicação são atingidos, costuma ser por pura obra e graça do velho e bom acaso e não de expertise alguma, que ainda levará anos para se consolidar.

A massa, em especial a molecada que ainda é maioria, não tá nem aí pra paçoca das “marcas na rede”. Com o mesmo frisson instantâneo que curte ou segue algo ou alguém, o esquece, deixando só o rastro para os navegadores entregarem aos donos do Google, Facebook e afins. Esses sim, proprietários dos bilionários poços de petróleo, cuja matéria-prima, o óleo em questão, são seus usuários.

E é justamente aí, se esse óleo vazar, que um acidente de proporções continentais pode acontecer. Pessoas não são ativos confiáveis, por mais previsíveis que a interpretação do stalking mercadológico cometido por estes serviços on-line possa fazer parecer.

A ameaça de ruína futura de uma rede social é real. Basta um grupo de entediados começar a deletar seus perfis, ou abandoná-los por outra novidade, e uma reação em cadeia pode acontecer. Altavista, ICQ e Netscape são provas semimortas dessa possibilidade, assim como os decadentes MySpace, Orkut e Yahoo parecem seguir o mesmo destino. Se vão desaparecer por completo, é outra conversa.

A internet é uma mídia ancorada no momento. Vive de paixão, excitada como um coração adolescente procurando sempre pelo novo amor que vai dar sentido à sua vida esta semana. Quase doze anos depois do estouro da bolha, navega-se em um otimismo tão irracional quanto o valor do IPO que o Facebook está prestes a arrecadar.

A nova bolha são os outros. Quanto a isso não há nada que os executivos possam fazer senão esperar e assistir ao desenvolvimento do enredo, cujo final pode ser feliz. Ou tão bizarro quanto só um filme B de terror consegue ser.