O crepúsculo do folhetim

“Levantar a audiência tem sido bem mais difícil, viu, Lu”

As novelas, não se cansam de reafirmar os releases das emissoras, estão ao lado do futebol, do espiritismo, das loterias e das bundas no top five das paixões nacionais. Verdade velha ou não, o fato é que os índices de audiência permanecem em queda, acentuando-se pouco depois da estréia de cada nova trama ─ palavra que tomada em seu sentido lato exibe o que se vê a cada reedição de autor: os mesmos fios e cores em urdidura semelhante.

Internet à parte, o público parece estar se cansando de assistir sempre ao mesmo enredo entrelaçado de forma diversa de acordo com o autor. A mesmice e a tipificação estão matando o telefolhetim.

E dá-lhe irmãos que se apaixonam sem conhecimento do grau de parentesco, mortos que voltam vivíssimos, arrivistas de toda sorte, amor interclasses, vilões “frios e calculistas”…

Assim foram as antecessoras. Assim ─ e ainda menos dinâmica ─ é a já terminal “Vim Ver a Rica” – rebatizada por nós por ter como moto as cenas em que os ricos se visitam; também função do núcleo pobre a gravitar-lhes o entorno, em eterno vir a ter com os patrões.

Luxo, design e brasilidade for export dão o tom nas intrigas do Maneco, que se compõem, basicamente, do winner garanhão; de breakfasts em que pouco se come e muito se comenta; diálogos plenos de wit cosmopolita debruados por bossa leblonense; mar; mulher bonita; alguma fatalidade que atinja a uma das mocinhas, geralmente em forma de doença; o vazio existencial-chic da Helena da vez (nunca houve umazinha Helena pobre, as que vieram de um pouco mais baixo já começam a novela lá em cima); merchandising social e cultural e, last but not least, o doutor Moretti.

Buscar o filho no colégio é um evento importantíssimo no desenrolar das novelas do Manoel Carlos, assim como o quem matou? e a influência das chanchadas e do cinema italiano estão para as do Sílvio de Abreu, e as poderosas matriarcas judias (por casamento: Odete, que virou Roittman; Chica, que fez-se Newman etc.) e a crítica de costumes nas do Gilberto Braga.

No horário nobre dos canais da televisão aberta urge a reinvenção. Desesperadamente! E não o remake de antigos sucessos nos quais os temerosos produtores desses canais preferem apostar. É certo que um pouco da originalidade das atuais séries norte-americanas ajudaria muito, já que quem não tá na internet nesse horário, nem vivendo a vida de verdade, longe do sofá, tá ligado nelas.