Vivo

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Manuel ligou. Meu poeta predileto desde sempre disse que não pode (nem quer) vir, mas ficará feliz com a homenagem. Está em leve depressão e com a alma retorcida por um resfriado. Coisa que, segundo ele, também acomete os espíritos vez por outra.

Falamos pouco de poesia, amor. Lá de onde ele está, me diz que enxerga o mundo num prisma que não admite os floreios tolos da correção política, nem o otimismo parvo, sabor autoajuda, tão em voga nos meios atuais. Com uma nota triste no fio de voz, afirma que um problema sério é que, mesmo com tanta gente na Terra, o padrão, do gosto às ideologias, anda unificado demais.

“É de um fascismo que nem Hitler cometeria o que estão fazendo com vocês aí embaixo. Eu não volto antes de, pelo menos, uns cem anos. Não me globalizo antes disso.”

No final da ligação, falávamos sobre a crise financeira que chacoalha o mundo, e ele concordou comigo que ter gente demais aqui e não haver recursos para todos está na raiz da questão.

“Muitos serão sacrificados à penúria. O capitalismo, que é feito de ilimitado crescer e crescer, atinge o paroxismo. Embora possa, nos dias que correm, oferecer o mais vasto sortimento de coisas e abstrações imagináveis, cada vez a menos dará, e a mais alto preço. Pode esperar. Verá.”

O planeta bateu no limite como tantos predisseram; sim, já sabemos. Seremos chamados à realidade sem piedade nem poesia. Sim, também sei. Enquanto isso, continuo gastando água em banhos intermináveis, que a santidade nunca foi o meu motor.

Se eu pudesse, Manuel, gostaria de só amar o dia inteiro, sem precisar me aborrecer com preocupações Monetárias nem com questiúnculas que nos apartam da existência plena. Queria muito, assim como você, ser todo espírito e invenção, mas tenho um corpo para cuidar e toda uma prole de desejos a alimentar. Vagabundo sem ser rei que sou, vou seguindo.

Ah, Manuel, se eu pudesse morrer sem ir-me embora…